quarta-feira, 29 de julho de 2009

TV Zimbo exibe imagens das recentes demolições e da manifestação de protesto

(Flashback/Julho-2008) Nós, os contínuos do Sr. Keirós

Sim, somos nós mesmos, os contínuos ou os rapazes, como eles também gostavam (e continuam a gostar) de nos chamar, que fomos entrando a conta-gotas e escurecendo progressivamente as redacções que, entretanto, iam ficando desertas, porque eles, os “senhores jornalistas”, tinham decidido regressar à procedência. Isto aconteceu há mais de 30 anos quando tudo isto começou a mudar e eles, os “senhores jornalistas”, também começaram a fazer as malas e os caixotes para bazar, porque começaram a ficar com medo do caos que vinha das matas na ponta dos fuzis libertadores dos manos kambutas. Os primeiros, a maioria, foram antes da dipanda transformados em coléricos retornados. Os outros que foram pouco tempo depois, antes do 27 de 77, travestidos já em vítimas de uma suposta revolução traída, acabaram por seguir o mesmo caminho de regresso ou de ruptura com uma Angola que tinha deixado de ser aquela com a qual tinham sonhando quando fizeram a quarta classe no Negaje. Um deles, que é proveniente não se sabe bem de que santa terrinha que até hoje esconde na sua biografia, tem-se destacado nos últimos tempos com a publicação no oficioso matutino de textos patéticos onde tenta vender aos seus novos patrões, sabe-se lá a que preço, a imagem de uma angolanidade reforçada com propósitos evidentes no âmbito dos seus conhecidos malabarismos. Todos, como é evidente, tinham o direito de regressar ou de ir procurar noutras paragens do continente, como no paraísos do apartheid mais sul do rio Cunene, a estabilidade e a segurança que de facto e de jure começava a faltar por estas bandas onde a liberdade, a revolução e a guerra civil com uma forte componente externa, assentaram arraiais e fizeram as “pazes”. Não se veja, por conseguinte, nestas linhas passadistas qualquer crítica ou reparo menos positivo a quem decidiu naquela época partir à procura do que começava a faltar por aqui. O resto da história que só terminou em 2002 já toda a gente conhece, pois foi contada dia após dia nos jornais, nas rádios e nas televisões pelos contínuos e os rapazes que ficaram e aqui continuam até hoje. O direito de viver onde bem entendermos ou de procurarmos refugio/asilo onde for possível (e nos for concedido) já faz parte da cartilha universal dos direitos humanos, com todas as excepções que conhecemos por este mundo afora. Não criticamos, pois, ninguém que partiu ou que foi desta para melhor, mas já não podemos aceitar, de forma alguma, que sejamos condenados por termos ficado na nossa própria terra e por termos abraçado o jornalismo como profissão, sem termos que pedir a autorização aos “senhores” que se foram embora. Mais difícil de aturar, é que um destes antigos retornados que tem agora o estatuto de regressado, nos venha aqui, mais de 30 anos depois, insultar ou tentar diminuir, com inconsistentes, inverídicas e desonestas referências que têm a agravante de serem profundamente racistas, considerando o valor que (não) era dado a figura do contínuo no dicionário colonial. Afinal de contas, onde é que está o grande fracasso humano do contínuo para ser tão subestimado e achincalhado como acaba de ser, de forma algo contraditória, na “história de grande sucesso” dada a estampa pelo Jornal de Angola? Em nome da dignidade de uma classe que nasceu do nada, a partir de voluntariosos jovens angolanos, que não tinham licenciaturas da Sorbonne, mas que tinham muita vontade de aprender a escrever um país diferente, aqui estamos, 30 anos depois, no mesmo sítio, nas mesmas redacções que os “senhores jornalistas” abandonaram convencidos na altura que os contínuos ou os rapazes jamais conseguiriam substituí-los. Das nossas redacções saiu, entretanto, muito boa gente, muito bom contínuo, muito bom rapaz, que hoje dirige este país ao mais alto nível da sua hierarquia. Do poder político ao poder económico. Se os contínuos ou os rapazes da época substituíram bem os “senhores jornalistas” do passado, é uma questão para ser discutida noutra altura, com algumas certezas antecipadas, com base nos percursos que os tais “senhores” seguiram no seu regresso, onde hoje nem sequer são considerados cadáveres. Deixaram pura e simplesmente de existir como referências. Agora que os contínuos e os rapazes os substituíram de facto, de jure e definitivamente já não há qualquer dúvida, sendo o jornalismo angolano que se faz actualmente nos “pasquins”, nos “megafones” ou nos “carros de fumo” a melhor prova desta inequívoca realidade que só nos pode orgulhar. Em nome da dignidade desta classe, aqui estamos para recusar, uma vez mais, lições de pacotilha de esclerosados “professores” que passam a vida a blasfemar dando toda a razão ao que o Zidane fez no Mundial da Alemanha. Transformar uma inocente vírgula (mal) colocada entre o sujeito e o predicado, no pecado maior do jornalismo mundial, para depois fazer dele arma de arremesso constante contra um projecto editorial angolano que já é efectivamente uma referência no nosso panorama, ilustra bem a dimensão ética e os maus fígados do cruzado europeu. Ilustra igualmente os seus propósitos destrutivos contra o pluralismo mediático e muito particularmente contra os contínuos e os rapazes que souberam dar corpo e consistência à imprensa privada angolana que hoje está aí como mais uma sólida instituição da nossa democracia. Quer ele goste, quer não. São propósitos que sempre vão servindo algumas causas locais míopes, ao serviço das quais o cruzado barbudo tem sabido colocar os seus dotes artísticos e a sua espada afiada de adjectivos numa trajectória de violências encobertas e abertas iniciada ainda durante o consulado de Marcolino Moco. Entre estas violências está, certamente, a sua passagem pela patrulha do JA na sua segunda fase, quando, pelos vocábulos utilizados, se percebeu que os novos patrulheiros de serviço já não eram da banda, estavam a ser contratados em terras lusas. Só é de lamentar que o tal cruzado tenha sido, uma vez mais, contratado por compatriotas nossos e com a utilização de dinheiros públicos, embora tenhamos recebido da parte de alguns deles (dos contratantes) sinais de saturação em relação ao seu feitio que o próprio reconhece alegremente como sendo mau. Mau é, obviamente, um grande favor que não nos atrevemos a fazer-lhe.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Em memória de Joaquim Pinto de Andrade

O Joaquim Pinto de Andrade (JPA) se estivesse vivo teria celebrado com a família e os amigos mais um aniversário natalício, o 83º, na passada quarta-feira, dia 22 de Julho. Em vez disso, e na sua ausência, a família e os amigos rezaram-lhe uma missa, para terem a certeza de que não se esqueceram nem se querem esquecer dele. O problema agora é saber o que fazer para preservar a memória do Joaquim, o que levanta de imediato várias questões em relação à escolha das melhores opções para a concretização deste desiderato. Pelo que nos foi dado a saber, é exactamente isso que a família e os amigos mais chegados pretendem discutir nos próximos tempos para depois partirem para a acção, o que não é fácil, num país que tem tantas barreiras naturais e artificiais como o nosso, quando se trata de fazer coisas que não fazem parte de certas “prioridades”. Uma fundação? Um centro de estudos? De facto há primeiro que reflectir para depois decidir. Cá estaremos a aguardar, com a certeza de que o Joaquim é daquelas figuras da nossa história que deveria primeiro ser reconhecida pela República e depois colocada no seu panteão nacional. Isto sem falar do partido que ele presidiu, um partido muito estranho que continua até hoje sem saber como lidar, em definitivo, com as suas origens, com o seu passado. À falta de um verdadeiro panteão nacional, sobra-nos o reconhecimento ou o... esquecimento. O JPA merece o reconhecimento de todos pela contribuição que deu à libertação nacional e não só. Não sabemos em que pé está o trabalho da Comissão que foi encarregue de fazer o levantamento das nossas figuras históricas. Parece que a tal Comissão já tem alguns resultados. Vamos estar atentos aos seus passos. Neste dia em que nos recordamos de Joaquim Pinto de Andrade, o nosso pensamento, não sabemos bem porquê, mas foi até a referida Comissão tentar fazer uma visita. Chegamos tarde. Estava fechada. Voltaremos, certamente, ao assunto do Joaquim e da Comissão das nossas figuras históricas. 1 comentários: Calcinhas de Luanda disse... Tive o prazer e a honra de o conhecer pessoalmente em 1992 em Luanda. Era uma pessoa de elevado nível cultural e cívico e já naquela altura era para mim uma prova de que o MPLA estava a perder as gentes capazes que tinham criado o partido.Como em Angola as fundações foram criadas para branquear reputações e mesmo a atribuição de nomes a Universidades deixa muito a desejar, julgo que um Centro de Estudos e Reflexão sobre o país talvez não fosse uma má ideia. 29 de Julho de 2009 1:17

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Estranhas preocupações jornalísticas

Num país onde a evasão fiscal é brutal, envolvendo, sobretudo, as mais altas e abastadas esferas da nossa sociedade é, no mínimo, estranho termos jornalistas preocupados com o não pagamento de impostos por parte dos pobres, como se a própria pobreza não fosse ela já o maior imposto que a esmagadora maioria dos angolanos paga para estar viva, quer dizer, para continuar a vegetar.
Tenham paciência!

Projecto-Terra ganha visibilidade como referência na luta contra a exclusão

Foi com um misto de satisfação e tristeza que lémos a semana passada no Jornal de Angola um editorial elogioso dedicado ao Projecto-Terra, financiado pela União Europeia, que o Governo angolano numa parceria com a FAO tem vindo a implementar desde 2007. Terá sido, nas nossas contas, a primeira vez que o “nosso Pravda” dedicou tamanha visibilidade ao assunto. ( Eu sei que o “Man Ribas” não gosta muito desta comparação, mas não é por mal que a fazemos, embora admitamos que ela possa ter as mais diferentes leituras, com destaque para a sua conotação jornalística menos simpática.) Satisfação, porque o Angolense tem sido o único jornal que, desde o principio, de facto, tem conferido toda a importância e prestado a necessária atenção que o referido projecto merece no actual contexto, onde os interesses das populações mais desfavorecidas correm o risco de desaparecer do mapa das prioridades nacionais, diante de poderosas e autistas voragens provenientes da estratosfera que Pepetela resumiu numa só palavra: ganância! O ponto de exclamação é nosso, nós que preferimos utilizar o sinónimo trungungu com a mesma pontuação. Para quê tanto trungungu?! É disso que se trata e pouco mais, restando saber o que é que virá depois em matéria de consequências para a própria coesão nacional. Nesta e noutras matérias conexas, o nosso prognóstico é muito mau. Curiosamente o JA, no seu editorial, comunga desta nossa preocupação com o futuro deste país a manterem-se as actuais tendências. Estamos a assistir a uma corrida desenfreada dos poderosos, ligados às mais altas esferas do poder político, a tudo quanto é terra e terreno, numa verdadeira guerra de expulsão e ocupação de todos os espaços sob os mais variados pretextos. O argumento da utilidade ou do interesse público já não convence ninguém, pois vivemos num país onde as fronteiras entre o público e o privado, deixaram praticamente de existir, com o primeiro a proteger o segundo ou a servir-lhe de ponta de lança, tudo muito bem combinado e estrategicamente articulado. A tristeza evocada no inicio é puramente profissional (jornalística) e tem a ver com o facto de, nas duas matérias que o JA dedicou ao assunto na mesma edição (sábado/18 de Julho), um editorial e uma notícia desenvolvida, não se ter feito nenhuma referência aos reais obreiros do alcance da “paz em Capandeio”. Do ponto de vista jornalístico, uma omissão destas é de uma gravidade incomensurável, enquanto se apura se a “lacuna” foi involuntária ou deliberada. Para além do financiamento da União Europeia que tornou possível o arranque do Projecto-Terra, não é possível em toda esta movimentação ignorar a FAO e muito menos os seus especialistas (nacionais e estrangeiros) que em Angola e muito particularmente nas províncias de Benguela, Huambo e Huíla, têm vindo a trabalhar arduamente com os autóctones na delimitação das terras das comunidades tradicionais a fim de lhes ser passado pelos governos provinciais o respectivo “Título de Reconhecimento de Ocupação, Posse e Direitos de Uso e Fruição de Terrenos Rurais Comunitários”. Ao passar completamente ao lado destes protagonistas, o JA de facto não prestou um bom serviço ao jornalismo para além de ter cometido uma grande injustiça. O que se passou a semana passada em Capandeio foi apenas mais um acto dos vários que já tiveram lugar no âmbito deste Projecto de titularização de terras tradicionais. Capandeio ganhou a visibilidade que o JA lhe conferiu porque a cerimónia de entrega do Título foi presidida pelo Governador da Huíla, Isac dos Anjos, que esteve antes, de corpo bem presente, num seminário que o Projecto-Terra organizou no Lubango para debater uma vez mais a problemática fundiária do nosso país. Seja como for, estamos totalmente de acordo com o JA em relação à necessidade de levar o exemplo de Capandeio para “o resto do país porque o desenvolvimento rural não pode viver com os camponeses sobressaltados com a intrusão de outros proprietários ou concessionários de exploração de inertes ou madeiras, como é tão comum acontecer”. Mais de acordo estamos ainda com o nosso matutino, quando o seu editorialista a dado passo chama a atenção para o facto de, nesta do agro-negócio, ser bom que “às comunidades rurais sejam garantidas as terras indispensáveis ao seu sustento e à produção de alimentos para lançar no mercado, como forma de melhorarem as suas vidas e das suas famílias”. O JA quase que nos tirava todas as palavras da boca ao alertar quem de direito para a importância que é saber evitar que “em nome do progresso não se leve a agitação e conflitos às famílias rurais, onde é tudo tão débil, tão precário, que a mínima turbulência pode provocar um desastre humanitário”. Com esta passagem fica quase perdoada a referida e lamentável omissão.
NA- Para mais informações sobre o Projecto-Terra consultar:http://projectoterraangola.blogspot.com/search/label/Dados%20gerais

terça-feira, 21 de julho de 2009

SOS PRESILD!

De acordo com a notícia do JA, o engenheiro Luís Salvaterra, que dirige a Sociedade de Desenvolvimento da Matala, apelou o PRESILD e outras redes comerciais que entrem em contacto com a sua empresa a partir do próximo dia 1 de Agosto, para que adquiram o produto a preços competitivos, tendo em conta a sua qualidade, comparativamente à batata importada da África do Sul.
O Estado angolano já terá gasto muito mais de 600 milhões de dólares com a implantação do PRESILD. Um esforço financeiro que, quanto a nós, só faria algum sentido se fosse canalizado prioritariamente para apoiar a comercialização da produção agro-pecuária nacional, o que ainda está muito longe de vir a acontecer.
O que se tem verificado até agora é que, para já, o PRESILD, não passa de uma rede de lojas e supermercados que vende produtos importados e pratica o dumping, graças às isenções fiscais e outras facilidades que a sua condição de projecto político governamental tem conseguido obter de mão beijada.
Será isto, a nova economia de (super)mercado que estamos com ela?
"O PRESILD – Programa de Reestruturação do Sistema de Logística e de Distribuição de Produtos Essenciais à População, foi criado pelo governo de Angola com o objectivo de organizar e modernizar a actividade comercial em todo o território nacional, de forma a ampliar a oferta de produtos essenciais à população. O Programa abrange mudanças estratégicas, que vão da actualização do quadro legal vigente no país à construção de novas infra-estruturas para o comércio grossista e retalhista. Inclui também a criação de incentivos financeiros, fiscais e produtos de seguro, bem como a formação profissional de comerciantes e trabalhadores. Com isso, o Estado renova a sua função reguladora do Comércio, reafirma os pressupostos da economia de mercado e assume um compromisso primordial: melhorar as condições de vida e o poder de consumo das populações, através da oferta regular de produtos essenciais, com qualidade e preços mais justos." (Informação oficial)

(Flashback/Julho 2006) Sou um homem feliz: Nunca andei de candongueiro em Angola!

- Subsídios para a história dos transportes públicos em Luanda Gosto muito de gabar-me junto dos meus amigos que uma das grandes proezas, sem aspas, da minha vida, ao longo destes primeiros trinta anos de independência tem a ver com o facto de - para além de jamais ter empunhado uma arma de fogo - nunca ter andado de candongueiro. Eu que até já figuro como personagem real de um livro de contos do vigário onde o seu autor revela (?!) que eu fui contratado, no âmbito de uma vasta conspiração interna, para o matar, se um tal de golpe pegasse. Os que conhecem esta história, já estão a ver qual é o filme e quem é o artista. De facto é verdade. Acreditem que é verdade, embora eu acredite também que não seja muito fácil acreditarem em mim pelo menos no que toca a esta passagem da minha vida. Não a do golpe, mas a do candongueiro. De facto e de jure nunca pus os meus pés dentro de um candongueiro em Angola, porque lá fora não tenho qualquer problema em utilizar este “processo”, com o qual me movimento bastante bem, como é o caso da África do Sul e mais particularmente da cidade do Cabo que já conheço relativamente bem. Ao lado dos nossos, os candongueiros de Capetown até são pessoas muito bem-educadas, pelo menos para quem tem a experiência de lidar com os “nossos parentes” cá da banda. Tudo isto, entretanto, é um bocado aparente, pois volta e meia, os candongueiros de Capetown envolvem-se em cenas de grande violência, que implicam o recurso à armas de fogo. Não se trata contudo de violência contra os passageiros. São problemas criados pela delimitação de zonas de trabalho entre os diferentes sindicatos de transportes que operam na cidade. Aí as coisas ficam muito feias, havendo por vezes mortos e feridos a lamentar. Mas deixemos a bonita cidade sul-africana do Cabo para voltarmos à nossa dura realidade, onde eu acabo por ser um privilegiado, por nunca ter andado de candongueiro. Nos tempos em que não possuía viatura própria, até meados da década de oitenta, os candongueiros ainda estavam longe de ocupar o actual espaço no mercado dos transportes públicos luandense. Nessa altura andava bastante a pé e de boleia quer do carro do serviço, quer de amigos, conhecidos e desconhecidos. Mas também andava de autocarro e muito bem, sem qualquer problema de espécie alguma, logo eu que cresci cruzando esta cidade de machimbombo, incluindo o famoso “muiungú” e aqueles de primeiro andar iguais aos de Londres. Os anos foram passando e com eles os vários carros que então fui adquirindo, tendo começado como muito boa gente que hoje anda com os últimos gritos da BMW e da Range-Rover, pelas sucatas de Roterdão ou de Bruxellas, onde a viatura que mais se comprava era o célebre Volvo-244. A saudosa ANGONAVE (que Deus a tenha) fazia-nos depois o favor de colocar as nossas viaturas em Luanda ao preço de uma grade de gasosa do cabaz complementar. Foi por estas e por outras que a empresa foi a falência e os seus marinheiros tiveram depois de dormir cinco anos consecutivos ao relento, a beira da estrada, na mais longa vigília laboral de protesto que a História Universal tem conhecimento. Esta classificação é da nossa inteira responsabilidade. O advento em força dos hiaces encontrou-me já bem abastecido em matéria de transporte próprio, pelo que nunca precisei de andar de candongueiro. Felizmente. Das poucas vezes que, por motivos de força maior, fiquei sem o meu carro e tive de andar a pé por esta cidade, recusei-me sempre a entrar num candongueiro. Primeiro porque não conheço as linhas, nem sei como elas depois se cozem no meio dos percursos para se chegar aos diferentes destinos. Segundo porque a minha recusa já era o resultado de um trauma, por ter ouvido todas aquelas histórias das peripécias porque passam todos quantos são forçados a ter de utilizar o candongueiro. São histórias aterradoras e humilhantes, onde a falta de respeito dos motoristas e dos seus cobradores, são o pão-nosso de cada dia. São histórias para esquecer. Por tudo isto nunca andei de candongueiro em Angola. Por tudo isto e depois de tomar conhecimento da morte na passada terça-feira de uma senhora que viajava de candongueiro, muito provavelmente vítima de uma síncope cardíaca provocada pela barulheira da aparelhagem sonora da viatura, sinto-me um homem feliz, lamentando profundamente a sorte da vítima. Como se apercebem não é assim tão difícil ser-se feliz em Angola, apesar dos pesares. Só espero, sinceramente, que este bocado de felicidade que conquistei com o meu esforço e as minhas economias, seja eterno, enquanto por aqui andar. Mas se algum dia me virem andar de candongueiro, façam como o poeta: Não acreditem nos vossos olhos! Tou paiado!

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Será que ninguém entende onde é que está o segredo de Angola?

Foi com a interrogação em epígrafe que terminei a última crónica que publiquei nesta coluna a semana passada.Eu há muito que sei qual é o segredo e acredito que a maior parte dos angolanos, incluindo os da nomenklatura, também o saiba. Só não sabia é que o “longínquo” Barack Obama também já estava a par do nosso segredo, que acaba de “desvendar” em Accra, Gana, onde esteve a semana passada a pregar para todos os peixes trungungueiros de África e arredores. Disseram-me que o sermão, afinal de contas, já tinha começado à porta fechada em Aquíla (Itália) durante o G8. Estamos a falar do segredo para fazer Angola acontecer sem mais problemas complicados, para além daqueles normais e aceitáveis que decorrem da própria maturação (que é sempre lenta) dos processos que nos conduzirão ao tão almejado equilíbrio mínimo. A referência é o Índice de Gini que actualmente nos coloca no ranking dos países mais injustos do mundo do ponto de vista da distribuição do rendimento nacional. As consequências desta disparidade estão à vista de todos. Para além da repressão, o alcance do tal equilíbrio é a única solução realmente estruturante que temos para evitar o colapso a médio prazo (cf Nigéria) que se adivinha todos os dias nas aterradoras estatísticas da criminalidade que finalmente a polícia decidiu assumir como sendo realmente preocupantes para a própria segurança nacional. Li no último relatório da UCAN que Robert Bosh, (fundador do império empresarial Bosh, conhecido em todo o mundo), afirmou: “não pago bons salários por ter muito dinheiro; tenho muito dinheiro porque pago bons salários”. Quando Bosh está convencido que foi assim que conseguiu a sua fortuna, que é real, o quê que nós estamos à espera para desvendarmos o segredo deste país? Agora em Accra, Barack Obama ao desvendar o segredo do nosso e dos outros países africanos que ainda não se libertaram da pobreza e da exclusão social disse que os passos numa tal direcção “implicam mais do que simples números de crescimento num balanço financeiro”. Obama estava, certamente, a referir-se a cantiga do crescimento do PIB que já nos cansamos de escutar por estas bandas em todas as frequências do discurso oficial e dos seus megafones de serviço. Para o “nosso” Obama muito mais importante que andar com o PIB às costas em tudo quanto é propaganda, é saber “se um jovem com formação consegue um emprego que lhe permita sustentar a família; se um agricultor pode transportar os seus produtos para o mercado; ou se um empresário que tem uma boa ideia pode formar uma empresa”. Os passos propostos por Obama “têm a ver com a dignidade do trabalho. Têm a ver com a oportunidade que deve existir para os africanos do séc. XXI.” Tudo o resto é demasiado abstracto para quem tem fome ou está desempregado. A maior parte dos angolanos e dos africanos ainda está a procura dos passos que os levem a ter o mínimo. Em Angola e para sermos ainda mais frontais a solução do problema, nesta altura, passa pela capacidade do Estado em distribuir um prato de sopa. A chamada sopa dos pobres, para que ninguém mais neste país passe fome. Em Angola a própria lei de bases da segurança social obriga o Estado a garantir um rendimento mínimo a todas as famílias que, por qualquer motivo, deixem de ter possibilidades de se auto-sustentar. Em Angola não há subsídio de desemprego. Estados com muito menos recursos do que o nosso garantem isso e muito mais aos seus cidadãos pobres. De facto assim estamos muito mal e vamos ficar ainda pior. As diferenças entre o topo e a base da pirâmide social são tão grandes que, a manter-se um tal gap, muito dificilmente o país irá algum dia acontecer como todos desejamos. Será que é para lá que estamos a caminhar? Parece que sim, que é para o lado da impossibilidade, do abismo, que nos estamos a orientar, quando temos tudo para ir pelo outro lado, quando temos tudo para dar certo. Será que ninguém nos ouve?

quinta-feira, 16 de julho de 2009

(Flashback/Julho 2007) Em defesa da Taag, a nossa companhia (que dá) bandeira

Há pouco mais de um mês numa das mais obscuras e abandonadas cidades de Angola, Mbanza Congo, um avião da TAAG despistou-se. Morreram cinco ou seis pessoas. Dezenas de passageiros feriram-se. Uma casa ficou destruída. Esta semana no aeroporto de Congonhas, na maior cidade da América Latina, São Paulo, uma aeronave da TAM despistou-se igualmente. Morreram carbonizadas cerca de 200 pessoas. Um edifício da empresa no qual o avião embateu ficou todo partido. Na sequência do infausto acontecimento de Mbanza Congo, no dia em que os franceses conseguiam os seus objectivos estratégicos junto da União Europeia, a TAAG foi crucificada pela opinião pública e pela imprensa local. Quase em uníssono os nossos escribas gritaram, “Abaixo a TAAG e o Ministério dos Transportes!” por entre rios de tinta e fel que encharcaram editoriais, colunas, análises e reportagens. 1-Do Ministro, um dos acepipes mais procurados pela nossa vigilante imprensa, nem adianta falar, pois o homem já deve estar curtido de tanta porrada apanhar. Foi mais uma, que contou desta vez com o sonante pedido de demissão formulado aos microfones da Ecclésia pelo Kota Mendes. Afinal, a Emissora Católica de Angola (ECA) sempre vai servindo para alguma coisa, sempre vai tendo alguma utilidade política e pública, mesmo para os seus mais assumidos críticos e detractores, que até hoje não lhe permitem a expansão do sinal a todo o território nacional. E não permitem, apenas porque têm medo de um quarto poder que lhes escape completamente do controlo, como é o caso da ECA, embora a própria Ecclésia também não seja um bom exemplo de independência editorial, devido a sua subordinação ao “império da religião”, comandado a partir do Vaticano. Para quem não o conhece, diríamos que o Kota Mendes é um famoso ancião cá da banda, que já não tem qualquer problema em utilizar a língua das palavras ou de ser politicamente queimado, pois segundo a sua própria auto-avaliação, ele já se transformou em cinza. De facto não é fácil queimar a cinza, embora o fogareiro angolano seja especial tal como é o seu povo, na avaliação de um outro Kota ainda mais famoso que o Ti Mendes, pelo que talvez o mais aconselhável fosse não ser tão taxativo. Por outras palavras - e sem querermos assustar o Kota Mendes, porque o outro é “inasustável”- é de admitir que em Angola a cinza ainda pode vir a ser queimada. Só restará encontrar depois um nome de consenso para o novo produto resultante da queima da cinza. 2-O pobre do Quidó, como é conhecido entre nós o Vice Prezas, levou tanta pancada, que receio bem que ele tenha perdido os dentes e a língua algures num dos semanários desta Capital. De uma coisa estamos quase certos: não será tão cedo que ouviremos Hélder Prezas colocar a boca no trombone, o que, pelo menos, evitará que lhe coloquem algumas palavras, gestos ou intenções no seu discurso. De tudo quanto lemos a propósito do que ele terá dito, não vimos uma única citação das suas palavras, onde ele afirmasse preto no branco que Angola iria retaliar. Continuo a pensar que retaliação e reciprocidade, embora possam ser convergentes nas consequências que produzem, não têm a mesma origem ou motivação. Que eu saiba, nenhum acordo entre pessoas ou entidades civilizadas (não me perguntem agora pelo tipo de civilização) contempla o recurso a actos de retaliação. Retaliação tem a ver com a aplicação da Lei de Talião. O tal olho por olho, dente por dente. Coisa de bárbaros. Já não diria o mesmo do recurso ao princípio da reciprocidade, que é praticamente contemplado em todos os acordos onde as partes tenham negociado direitos e vantagens, de modos a salvaguardar-se os interesses dos signatários. Como se sabe, a Taag negociou com as suas congéneres europeias, como a TAP, British Airways, Air France e Sabena, acordos, onde de facto e de jure, está contemplado o principio da reciprocidade, por razões óbvias para todos. 3-A minha kamba Agnela Barros foi pura e simplesmente vaiada, enxovalhada e, finalmente, desclassificada por incompetência e má figura. Por alguns “experts” da nossa comunicação social, ela foi mesmo aconselhada a mudar de posto e a voltar para a cabine dos aviões da empresa que agora serve como porta-voz. Numa iniciativa que tem a nossa chancela pensamos organizar proximamente um concurso dirigido apenas a jornalistas para eleger o melhor e o pior porta-voz desta cidade. É claro que se o concurso for para o ar este ano, a Agnela está pura e simplesmente feita ao bife. No meio de todas estas cacetadas, pauladas e coices, os nossos escribas esqueceram-se certamente, ou não se quiseram lembrar, (Angola é um país com gravíssimos problemas de memória) que durante mais de trinta anos consecutivos, que é o tempo que a Taag voa para a Europa, nunca a nossa companhia de bandeira matou um único “branco alheio”. A simpática expressão “branco alheio” é idiomática do português falado em Angola, não possuindo qualquer conotação mais ou menos negativa ou pejorativa. De difícil tradução para o “português da metrópole”, só quem domina perfeitamente a nossa língua sabe exactamente o que ela significa. Desde que “viola” o espaço aéreo da Europa comunitária, é bom que se diga, a TAAG nunca teve um acidente fatal. Em termos de segurança, esta estatística, da maior importância e significado, não pode, nem deveria ser ignorada por ninguém, quando chegar a hora de se analisar o perfil de uma determinada empresa que se movimenta no espaço aéreo. Esta hora para a Taag já chegou. Estamos aqui desta vez ao lado da nossa companhia de bandeira, não para defendê-la cegamente, mas tão-somente para fazermos este exercício com todo o relativismo que o mesmo exige. Estamos convencidos que não existem neste segmento do mercado empresas cem por cento seguras, ou que observem com o necessário rigor todas as normas previstas nos manuais que rondam ou ultrapassam mesmo os mil “items”. Nada disso. Qualquer inspector conhecedor destas normas se estiver interessado em fazer a “vida negra” a uma companhia de aviação pode facilmente conseguir os seus objectivos. Para além dos seus próprios “azares”, que já são mais do que muitos, a Taag teve ainda um outro grande azar chamado SAFA, entenda-se, inspecção aeronáutica francesa. Tudo isto e muito mais para dizer, tendo agora por pano de fundo a tragédia de Congonhas, que a Taag, com todas as falhas que se lhe possam apontar -que as tem efectivamente - continua a ser uma companhia viável do ponto de vista dos procedimentos de segurança. Em Congonhas ficou uma vez mais provado que tudo pode acontecer quando desafiamos a força da gravidade e os elementos da natureza. Em Congonhas, enquanto se aguarda pelos resultados do inquérito, também havia edifícios próximos da pista e também pode ter havido falhas por parte da torre de controlo. Estamos igualmente convencidos que, à semelhança de Mbanza Congo e de São Paulo, haverá por este mundo afora muitas outras pistas que têm ao seu redor obstáculos que, se calhar, não deveriam lá estar por razões de segurança. Enfim… Mbanza Congo e São Paulo fazem agora parte da mesma interminável lista negra que não tem parado de somar vítimas. É o preço que a Humanidade está a pagar por ter desafiado os deuses.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Homenagem a Júlio Guerra com um recado a um cafajeste

É com algum atraso (cerca de um mês depois) que escrevo (publico) estas linhas de pesar e de homenagem para o Júlio Guerra de quem, nos idos de 77, fui subordinado no Jornal de Angola, quando ainda engatinhava nesta profissão. Contrariamente ao que aconteceu com a maior parte dos seus contemporâneos, alguns dos quais estão a regressar agora, mais de trinta anos depois, o Júlio Guerra foi dos poucos jornalistas brancos que ficou em Angola e nos ajudou a percorrer os primeiros e íngremes tempos do pós-independência com o seu conhecimento e com a sua experiência. O Júlio Guerra merece da minha parte este preito sincero, pelo grande e desinteressado contributo prático que soube dar ao jornalismo angolano, numa altura em que todos comíamos carapaus fritos, bebíamos bandejas de finos e não havia contratos chorudos para ninguém. O recado dos "contratos chorudos" é particularmente dirigido a um deles, por sinal o mais atrevido e mediático dos regressados e aquele que mais se tem destacado pela arrogância e o boçalismo com que se tem vindo a relacionar com alguns dos nossos colegas que têm a suprema infelicidade de trabalhar com ele no mesmo jornal, onde ele faz e desfaz, imbuído de um estranho complexo de superioridade, que, para além de traduzir um ego descomunal, parece reflectir algo mais grave e patológico relacionado com as taras raciais que herdou do seu próprio passado colonial, que começou nas terras do Negage onde terá acontecido o seu primeiro contacto com a banda, vindo não se sabe bem de onde. Como é possível um cafajeste destes, continuar por aqui a fazer das suas e depois de todas as patifarias, ordinarices e patetices que já protagonizou, é que é a questão mais preocupante. Um verdadeiro enigma. Mas como isto é Angola, é bem possível que ainda venha a ser nomeado Director do tal jornal, que é público, onde anda a infernizar a vida de meio mundo com a suas sabedorias saloias. Não se esqueçam que o seu plano incial (2006) de recolonização da nossa paisagem mediática, antes de ser corrido a pontapé da Média Nova, de acordo com o que o próprio linguarudo fez questão de tornar público no "Público", era trazer para Angola mais de 30 profissionais de Portugal... Os jornalistas angolanos seriam, obviamente, "promovidos" a categoria de contínuos, como é seu desejo antigo, já manifestado (reiterado) aquando da briga que manteve com o pobre do VS o ano passado. O seu complexo de colonizador não lhe permite até hoje reconhecer que já existem em Angola jornalistas angolanos que não têm nada a ver com o seu passado colonial e muito menos com os seus ancestrais. Continua a tratar-nos a todos por rapazes, que é o vocábulo mais "simpático" que encontra no seu bornal de insultos e ofensas para manifestar todo o ódio que nutre pelos profissionais angolanos. Estamos certos que Barack Obama não conhece esta peste. A semana passada em Accra se não tivessemos tanta certeza, diríamos que Obama já ouviu falar dele, tendo sido por sua causa que se lembrou do seu avô. "Alguns de vós sabem que o meu avô era cozinheiro de ingleses no Quénia e, embora fosse um ancião respeitado na sua aldeia, os patrões chamaram-lhe rapaz durante quase toda a sua vida"- Obama no Gana. [NA-Aos 67 anos de idade, o Julio Guerra faleceu em Lisboa vítima de doença (ataque cardíaco) no passado dia 14 de Junho.] 1 comentários: Fernando Pereira disse... Fico muito triste ao saber do falecimento de Julio Guerra, pessoa de grande caracter com quem tive o previlégio de ter colaborado no Jornal de Angola.Sabia que estava debilitado fisicamente, mas longe de saber que o seu estado adivinhava este desenlace. Como director do "Jornal de Angola", num tempo difícil da comunicação social, foi sempre um profissional dedicado e a promover os jovens que então por lá debutavam, e que hoje estão na direcção de jornais de referencia no País.Um adeus emocionado a um homem bom e a um profissional muito digno e coerente!Fernando Pereira 15 de Julho de 2009 12:12

terça-feira, 14 de julho de 2009

O caso Mingota e o exemplo do Ministro

O actual Ministro da Saúde, de seu nome completo José Vieira Dias Vanduném, corre o sério risco de ficar na história deste país por ter feito o que prometeu em tempo recorde. Pouco menos de uma semana. Uma verdadeira proeza no país real dos dois discursos e da propaganda como solução ideal para o que está mal. Da pobre Mingota, como não foi a primeira, nem será a última, poucos se lembrarão dela dentro de mais alguns meses, embora aquela imagem das suas derradeiras convulsões que a TPA transmitiu quase em directo, dificilmente alguém que a viu poderá esquecer. O Ministro da Saúde pode de facto a partir de agora introduzir no “modus operandi” das nossas instituições oficiais uma dinâmica que lhes é completamente estranha quando se trata de apurar responsabilidades e de punir os culpados. Enquanto se aguardam por outros desenvolvimentos mais definitivos, no país onde a culpa habitualmente morre solteira, o que o Ministro fez é uma verdadeira heresia para o imobilismo e o marasmo em que está mergulhada a nossa (deles) administração pública. Efectivamente e sem se pretender “esticar” demasiado a importância do gesto, o Ministro conseguiu provar que é possível, mesmo com todas as gasosas, encobrimentos e salários de miséria, estar-se no sector público com um outro espírito de missão que não é aquele que conhecemos e que de missão tem tudo menos o que deveria ter. Todos sabemos que não é fácil colocar ordem num circo, onde é melhor não fazer ondas, onde o jogo de bastidores é mais importante do que tudo o resto, onde ser do tal “partido” ainda é um valor moral e uma mais-valia absoluta, onde tudo se resolve deixando tudo como está e onde o que não tem remédio remediado está. O Ministro com o seu gesto frontal (o único possível aliás) conseguiu os aplausos de toda a sociedade, num país onde o que é normal vira espectacular e o que é condenável é tolerado e mesmo aceite com o argumento de que não somos os únicos ou ainda de que lá fora também é assim ou mesmo pior. As comparações com os exemplos bons evitam-se, como é evidente. O Ministro conseguiu igualmente arranjar mais uns bons e poderosos inimigos dentro da sua própria família política, que, certamente, não lhe vão perdoar por ter ido tão longe e de forma tão rápida. A intriga palaciana encarregar-se-á de fazer o resto. A esperança é que o seu gesto faça escola ao nível básico, médio e superior e que a partir de agora uma nova cultura de responsabilidade e da responsabilização se implante nos corredores de todos os hospitais deste país, mas não só. Esta cultura tem que ser implantada primeiro nos corredores da estratosfera do próprio poder político, pois é sobretudo lá onde todos os dias os cidadãos são mortos lentamente por decisões equivocadas que são tomadas e pelos colossais desvios de fundos públicos que são efectuados pela via do despesismo, da corrupção e de outros malabarismos que só nos empobrecem ainda mais. Podemos ter uma saúde pública e uma educação muito melhores, podemos ter melhores transportes públicos, podemos ter menos pobreza e menos criminalidade, se de facto os recursos forem melhor aplicados. É tão simples quanto isso. Será que ninguém entende onde é que está o segredo deste país? PS- O Director do Hospital Geral de Luanda acaba de ser demitido pela Governadora Francisca do Espirito Santo na sequência de um estarrecedor caso de violação sexual de uma debilitada paciente que se encontrava a receber cuidados naquela unidade sanitária localizada na Camama.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

A Ecclésia, o “esquecimento” do Governo e os outros projectos

“No que toca às demais rádios, enfatizou , a lei de imprensa recomenda a instalação de rádios em "FM", a nível do território nacional, que tenha uma extensão entre 25 a 30 quilómetros. "Quanto aos pedidos para a instalação de uma rádio numa dada província não encontramos nenhuma dificuldade", ressaltou a fonte, notando que "a instalação de uma Rádio em FM numa província obedece a critérios próprios"- Wadijimbi, citado pela Angop. Costuma dizer-se que é pela boca que morrem os peixes. As recentes declarações do vice-ministro da Comunicação Social, Miguel de Carvalho (Wadijimbi) a propósito da extensão do sinal da Emissora Católica de Angola (ECA) a todo o espaço nacional são bem um exemplo de como, de facto, os nossos peixes em Angola continuam a morrer pela boca. Não se trata, no caso vertente, de uma morte física e muito menos de um desejo do escriba de serviço que, como todos sabem, nutre pela vida de todos os seres humanos, sem excepção, o maior respeito para além de todas as divergências e makas do passado, do presente e do futuro. Nem sempre a inversa tem sido recíproca, num país onde a vida dos seus cidadãos já valeu menos do que um espirro. A analogia com os saborosos peixes do nosso imenso mar e dos nossos intermináveis rios, serve aqui, tão-somente, para recordarmos aos nossos políticos que a memória existe e deve ser respeitada; que a memória, por ser altamente estruturante, tem uma grande utilidade e que o grande drama de qualquer ser humano é terminar os seus dias sem memória, com o terrível e devastador mal de Alzheimer. A nível das instituições, um país sem memória funciona mal, muito mal mesmo, porque corremos todos, o risco, de passar a vida a dar o dito pelo não dito, sem que ninguém nos diga que nos estamos a esquecer de compromissos importantes. Mais grave do que isso, quando não há memória, quando tudo se subordina à lógica da conjuntura e dos interesses, deixa de haver palavra de honra. Uma sociedade sem memória e sem honra é o fim da picada. Lamentavelmente a Angola das instituições oficiais está a caminhar por esta via tortuosa. Claramente Wadjimbi e todos quantos como ele se têm pronunciado da mesma forma em relação à extensão do sinal da ECA, “esquecem-se” de uma decisão tomada pelo Governo já na segunda República, ao abrigo da qual o Estado angolano reconheceu os direitos que a Emissora da Igreja já possuía durante o tempo colonial. O processo de (re)legalização da ECA, mais de 20 anos após ter sido extinta pelo MPLA, na ressaca do 27 de Maio de 1977 decorreu, pois, deste reconhecimento de direitos adquiridos não podendo agora ser enquadrado na actual legislação, sob pena de ignorarmos alguns princípios fundamentais do próprio direito. Ao abrigo dos direitos reconhecidos, a ECA foi em 1993 autorizada a utilizar todas as frequências que possuía antes da sua extinção e nacionalização do seu património pelo Decreto Presidencial Nº 5º/78 de 25 de Janeiro de 1978. Até então a ECA transmitia em FM, Ondas Médias e Ondas Curtas. Os documentos que existem não podem ser ignorados por ninguém e muito menos por uma pessoa de bem, que é o próprio Governo, como gosta de ser apresentado. Convém pois, que os recordemos aqui para que não subsistam dúvidas em relação ao assunto que nos traz hoje a terreiro. (Ler docs mais abaixo em PS) Em relação às alegadas facilidades com que a FMs podem transmitir localmente, devendo para o efeito os interessados solicitarem as respectivas autorizações, Wadijimbi voltou a “esquecer-se”, pois sabe, certamente, que são mais do que muitas as dificuldades, as barreiras e as esquindivas. Vários são os projectos que já deram entrada nas instituições competentes, sem que até agora alguma autorização ainda tenha sido emitida, com a excepção da Rádio Mais (RM). Pelo que sabemos a resposta negativa que os interessados têm recebido passa pela inexistência da prevista legislação complementar (concurso público) que, segundo os despachos exarados, ainda não permite o adequado tratamento das solicitações. Primeiro não se percebe ao abrigo de que disposição a RM foi autorizada a transmitir em Luanda e agora no Huambo. Depois, de facto, não fazem muito sentido as “explicações” do Vice-ministro da Comunicação Social quanto à normalização deste processo apenas para tentar contrariar as reivindicações da ECA e dos fiéis católicos que querem ter a sua estação a transmitir em todo o país, antes de mais, ao abrigo do artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos. A não ser, que Wadijimbi tenha querido dizer que para já só serão autorizados os projectos que estejam de acordo com a grande linha editorial definida superiormente pelo seu Ministério. Como a Lei não faz qualquer exigência nesse sentido, nem poderia fazer, fica-nos o sabor amargo de estarmos apenas diante de um verdadeiro embuste que prossegue dentro de momentos. PS: O incompleto processo de legalização da Ecclésia 1-SECRETARIADO DO CONSELHO DE MINISTROS Em Luanda 26 DE Fevereiro de 1992 Ofício nº 101/04.40.30/SPS/SCM/91 PROJECTO DE DECRETO QUE ANULA A DECISÃO QUE NACIONALIZOU AS INSTALAÇÕES DA RÁDIO ESCOLA Cumpre-me informar que a Comissão Permanente do Conselho de Ministros na sua 5ª sessão extraordinária dos dias 18 e 19 de Fevereiro de 1992, ao analisar o documento sobre o assunto em epígrafe, decidiu o que a seguir se transcreve: -Anular a decisão tomada naquela altura com vista a devolução daquele imóvel a Igreja Católica – O SECRETÁRIO Dr. José Leitão da Costa e Silva 2-DECLARAÇÃO Para os devidos efeitos se declara que a Rádio Ecclésia – Emissora Católica de Angola, foi autorizada por Despacho de 30 de Setembro de 1993 de Sua Excelência o senhor Ministro da Comunicação Social, a realizar as suas emissões em Frequência Modulada., Onda Media e onda Curta. A presente declaração substitui para todos os efeitos legais o ALVARÁ PROVISÓRIO. Por se verdade, mandei passar a presente que por mim assinada, se autentica com o carimbo em uso neste Ministério. GABINETE DO MINISTRO DA COMUNICAÇÃO SOCIAL Em Luanda aos 30 de Setembro de 1993 O Ministro Pedro Hendrick Val Neto
3-DECLARAÇÃO Para os devidos efeitos, se declara que à Rádio Ecclesia (Emissora católica de Angola) foram concedidas as frequências Onda Media 944KC/S ; Onda Curta 4985KC/S60 metros, FM- 97.5MC/S. Por se verdade e me ter sido solicitada, mandei passar a presente declaração que assino e autentico com o carimbo à óleo em uso neste ministério. DIRECÇÃO NACIONAL DE INFROMAÇÃO DO MCS, em Luanda, ao 18 de Novembro de 1993. O DIRECTOR José Luís de Matos

1 comentários: Gil Gonçalves disse... Os Jingola acessavam uma emissão de rádio, onde amiúde proclamavam, desabafavam vicissitudes incomensuráveis. Apesar dos esforçados Politburo para a silenciar, ela resistia bravamente. Era o rumo dos sem rumo, assim divinizavam a Rádio Oráculo. Alguns casuístas comparavam-na a Asterix o Minigaulês, que resistia arrumado, aprumado num cantinho sombreado da mafumeira. Os Politburo rabulavam que a Rádio Oráculo era o seu calcanhar de Asterix. Os circuitos telefónicos mais íntimos da governação, paladinavam que era o calcanhar da função do real. Jingola propagandeava a epidemia de cólera, que militava com muitos aderentes para o interior do reino. Como praga ratada sem navios mercantes. Frechei-me com grande constrangimento: ninguém ousou explicar que a principal causa da cólera… é a fome. A epidemia cadastrou ao infinito de Jingola. A Rádio Oráculo solicitou anuência para implementar o seu feixe hertziano a todos os ouvidos do reino, para que as populações se informassem, acautelassem, sanassem a epidemia. Os Politburo liminarmente recusaram. Cartaram, selaram, pergaminharam para a Rádio Oráculo.Reverendíssimas Excelências da Rádio Oráculo:Havemos um contrato com o barqueiro Caronte. A epidemia da cólera faz as vítimas suficientes, as almas que o barqueiro necessita a contento. Sentimo-nos felizardos.Se o sinal da vossa fé se digladiasse pela rádio e por todo o reino se espalhasse, não cairiam vítimas da cólera. Contamo-nos peremptórios firmados, e esse vosso pretenso vento é, não aceite.Alvejamos a certa teologia do querem ir mais longe, para além das redondezas, dos limites de Delfos. As distâncias curtas por vezes tornam-se longas.Permitimos que funcionem devido à frequência democrática que nos foi imposta. Encetámo-la no compêndio das contrariedades.Estendemos-lhes um dedo, agora querem a mão, depois o corpo.Para convencer que somos democratas, anunciámos que se realizariam eleições. Notem bem: que se realizariam… em qualquer momento, em qualquer época. Tudo depende da nossa íntima vontade. Não é a claridade de qualquer oráculo que nos leva ao cume solar, datar eleições. Uma coisa é incerta: o principio da incerteza eleitoral.Os nossos insignes marinheiros vigiam atentamente as proas do vosso ecletismo. Pretendem entreabrir a janela da noite escura, para a missa de manhã. Fazer muita luz, para jorrar nos espíritos. Com tanta vela por aí à disposição. Estamos à vela.Abundantes Saudações Revolucionárias.Jingola, Frimário, Ano II.Ano da Vida Incerta.Resposta da Rádio Oráculo:Depois de consultado o Oráculo revelou-nos:Parafraseando o perfume opiado, marxista de Bertolt Brecht, condizemos: Há governantes que são corruptos num dia, e são bons.Há outros governantes que são corruptos durante um ano, e são melhores.Há outros governantes que são corruptos durante muitos anos, e são muito bons.Mas, há outros governantes que são corruptos toda a vida… esses são os imprescindíveis.Mutam-se os climas, mudam-se as tempestades. Tudo é composto de ciclones.Injectadas saudações.

O Directório.Jingola, 9 Termidor.

Ano da emissão da nossa Rádio a todo o Reino. 13 de Julho de 2009 3:31

quinta-feira, 9 de julho de 2009

(Flashback /Julho,2007)-CEIC: Uma voz activa e inteligente a clamar num deserto chamado Angola

1-E vão cinco… É o número de relatórios económicos anuais já produzidos pelo Centro de Estudos e Investigação Científica (CEIC) da Universidade Católica de Angola (UCAN). O Relatório Económico de Angola 2006 é assim o mais jovem reforço desta utilitária série que já deu mostras de ter vindo para ficar, que já provou que se quer instalar entre nós, aliás que já está instalada, como uma sentinela atenta ao desempenho da economia angolana e dos seus protagonistas. Uma vigilância mais do que necessária e recomendável em qualquer país. Uma vigilância orientada em primeiro lugar para a estrutura que mais responsabilidades tem na gestão dos recursos que a todos pertencem. Esta estrutura é, obviamente, o Governo. Para governarem melhor os executivos precisam de oposições fortes, competentes e actuantes. Mas também precisam de uma sociedade civil esclarecida e capaz de questionar em profundidade políticas e estratégias com análises consistentes e convincentes, sem qualquer intenção mais imediatista relacionada com a conquista do poder. É aí que reside a serenidade da sociedade civil que deste modo parece estar em melhores condições de ir um pouco mais a fundo na abordagem das questões que todos nós queremos ver resolvidas a bem do equilíbrio nacional e da justiça social. O pensamento único já não faz qualquer sentido, aliás nunca fez. Onde ele se instalou só produziu mediocridade e conformismo permitindo que as forças politicamente mais poderosas impusessem ditaduras e arruinassem as economias. Em Angola nós já tivemos a experiência do pensamento único (PU). As consequências estão à vista de todos. Em abono da verdade o PU ainda prevalece, pois em democracia a única forma de contrariarmos um determinado modo de pensar e agir politicamente é convencer os eleitores a não votarem nele no próximo sufrágio universal. Ora como se sabe, os angolanos, depois da primeira experiência com as tais urnas que viraram caixões e valas comuns para muitos deles, nunca mais tiveram a oportunidade de repetir a dose. 2-Baseados apenas na ciência e na investigação são relatórios independentes como estes elaborados pelo CEIC, sobre os mais variados domínios da vida nacional e do saber, que ajudam as sociedades a conhecerem-se melhor. Que ajudam os homens a compreenderem os fenómenos mais complexos. Que ajudam os eleitores a avaliarem melhor o desempenho dos governos e das propostas alternativas quando chegar a hora. A informação é hoje um capital crítico que nenhum cidadão pode dispensar se não quiser ser mais uma “maria que vai com as outras”. Com todo o respeito que temos por este nome, Angola está cheia deste tipo de “marias”. O CEIC já é uma referência inteligente da nossa sociedade civil por mérito próprio, mas muito dificilmente conseguirá um dia destes que lhe seja outorgado pelo Conselho de Ministros o estatuto de associação ou instituição de utilidade pública. Este estatuto cujo regulamento desconhecemos, se é que existe algum, é um dos instrumentos que melhor traduz a aplicação do poder discricionário do governo, que deste modo atribui a quem bem quiser e lhe apetecer o referido estatuto. Desconhecemos igualmente quais são os benefícios deste estatuto para as organizações que dele beneficiam, mas desconfiamos que as mesmas tenham acesso a algumas isenções fiscais no exercício das suas actividades, particularmente quando têm de importar algum bem ou equipamento do exterior. Haverá certamente outros privilégios que este estatuto oferece aos seus beneficiários, que só são aceitáveis se de facto a sua actividade tiver alguma relevância na solução dos grandes problemas sociais que este país enfrenta, sem outras conhecidas contrapartidas que orientam por exemplo o desempenho das empresas. O CEIC é daquelas instituições que pelo seu trabalho, que é do maior interesse público, já deveria beneficiar deste estatuto que o Conselho de Ministros volta e meia atribui a organizações que de uma forma geral são convergentes em relação às suas origens políticas. Estamos aqui a escrever um pouco de memória, mas a ideia que temos é que todas as associações que já foram oficialmente consideradas de utilidade pública são afectas à família que domina politicamente este país. Ora isto é muito mau para a credibilidade do Estado que já é apontado em muitos círculos nacionais e estrangeiros como sendo um “estado-clientelista”, onde se incluem as relações que estabelece com as empresas. A imagem de Angola espelhada nos últimos relatórios a que tivemos acesso retrata um estado onde todos os acessos económicos são definidos com base em critérios de fidelidade política. Exagerada ou não, só o Governo está em condições de contrariar esta imagem o que, como é evidente, não será possível apenas com desmentidos e mais algumas proclamações sobre a “pessoa de bem” que é o estado. 3-Sabemos que a vida do CEIC em termos de recursos necessários à sua sobrevivência não tem sido nada fácil. O Centro vive de algumas doações anuais que podem a qualquer altura deixar de existir. Pelas provas já fornecidas é altura das diferentes entidades públicas, que passam a vida a encomendar estudos a consultores e instituições estrangeiros de muito duvidosa competência e idoneidade, olharem para o Centro com outros olhos. Díriamos mesmo, com olhos mais patrióticos, pois eles os investigadores do CEIC são nossos, já são o orgulho da nata universitária angolana pelo trabalho que têm vindo a desenvolver. Eles já merecem estes outros olhares. Eles podem, entretanto, fazer muito mais se lhes for dado trabalho. O Centro pode assim crescer e afirmar-se ainda mais como uma referência do saber em Angola. De facto já é altura de se gastar cá dentro, muito do dinheiro público que hoje se desperdiça lá fora com estudos económicos que acabam por não ter qualquer utilidade. Já é altura dos próprios investigadores e consultores angolanos começarem a pressionar quem de direito a produzir a competente legislação para apoiar e estimular o crescimento deste segmento do mercado. Subscrevemos assim inteiramente o que Noelma Viegas de Abreu, a Directora Executiva do CEIC, escreveu na nota introdutória do Relatório Económico de Angola 2006.
PS- São dela as palavras que se seguem: "O Centro de Estudos e Investigação Científica da Universidade Católica de Angola, ao pôr à disposição do país, e não só, o Relatório Económico de Angola, tem como motivação central contribuir para a informação e formação sobre a situação económica mas também, dar a conhecer aos governantes e decisores políticos o que os dados nacionais salientam e exigem como mudança e necessidade de actuação, no sentido de melhor gestão, transparência, de luta contra a corrupção, luta contra a desigualdade social e direito a uma vida com mais qualidade. Não podemos deixar de referir que os relatórios económicos anuais, assim como toda actividade e produtos do CEIC são o resultado do esforço de uma equipa pluridisciplinar, estruturada e organizada em núcleos de pesquisa composta por nove investigadores e três administrativos em regime de dedicação exclusiva e de 15 investigadores colaboradores em regime de colaboração permanente ou em projectos anuais e ainda de investigadores correspondentes. É esta equipa que permite que a qualidade do trabalho do CEIC ultrapasse o quadro da Universidade Católica. Fazer pesquisa e investigação é igualmente um domínio da “paixão e do espírito de missão”, num ambiente completamente árido que situa Angola ao nível de padrões de auditoria e de contabilidade em 121º lugar, num universo de 128 países, e em 125º lugar em relação à disponibilidade de serviços e de instituições de pesquisa, segundo um recém publicado Relatório sobre a Competitividade em África. O acesso e a cedência de informação são também contingências ainda complicadas de contornar, não só pela personalização dos dados do país, mas também pelo tempo útil em que eles podem ser disponibilizados. Apesar desta realidade difícil, com a ajuda de algumas individualidades e de instituições que têm contribuído para este projecto e o tornam possível, o CEIC consegue desenvolver o seu trabalho". Luanda, 18 de Junho de 2007 Noelma Viegas D’Abreu Directora Executiva

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Ary- Nasceu uma nova Estrela!

Ary é uma das vozes angolanas do momento!
É díficil passar por ela sem reparar na sua música, no seu sorriso e na sua presença de alto a baixo para consolo das nossas "vistas".
A nossa objectiva captou estas imagens na sua mais recente aparição na TPA esta quarta-feira.
Ary é das (poucas) coisas realmente boas, muito boas mesmo que, de quando em vez, acontecem neste país e que nos ajudam a elevar a nossa crónica cabisbaixa auto-estima, enquanto angolanos.
Que venham mais cinco Arys e... não se fala mais nisso.

Michael Jackson, Bernard Madoff e outras tristezas

Michael Jackson morreu aos 50 anos, sem que até agora tenha sido apurada a causa do seu inesperado óbito, em vésperas de dar inicio ao que deveria ser a sua mais extraordinária (monumental) tourné internacional com a realização de 50 espectáculos no UK nos próximos meses. Por burla bilionária, o “fundista” Bernard Madoff aos 75 anos de idade foi condenado a 150 anos de cadeia efectiva, o que significa na prática uma pena por morte lenta. O que é que os dois acontecimentos têm em comum? Para além dos dois protagonistas terem nascido nos EUA, são acontecimentos tristes, muito tristes mesmo. O primeiro é de uma grande tristeza para a família, os amigos e os fãs do Michael, onde estamos incluídos, desde o tempo dos genuínos “Jacksons Five”. O segundo é igualmente de uma grande tristeza e revolta para todos quantos foram enganados pelo Madoff e que hoje enfrentam graves problemas financeiros quando pensavam que tinham a sua situação definitivamente resolvida com os investimentos feitos. Para além das carradas de tristeza que originou, Madoff é igualmente a tristeza em pessoa, tristeza do ponto de vista do seu ganancioso desempenho profissional a traduzir a tristeza de um sistema que tanta tristeza tem estado a provocar por este mundo afora, com todos os prejuízos dramáticos que se conhecem e que são responsáveis pela actual crise internacional que nos afecta todos. Madoff é o símbolo mais perverso deste sistema global que vive da especulação desenfreada e alimenta meia dúzia de chulos. Um sistema que deveria ser julgado por toda a humanidade e condenado a desaparecer definitivamente de todas as bolsas, bolsos e kafucolos. A solução é mesmo abandonar a bolsa e voltar a economia real. Este recado é especialmente dirigido a alguns angolanos muito especiais que andam a “brincar” com o dinheiro público além fronteiras em investimentos bolsistas cuja consistência poucos conhecem. De consolação, sobra a rapidez exemplar com que Madoff foi julgado e … condenado. Uma consolação que não conseguimos encontrar noutras paragens e noutros sistemas judiciais, onde o colarinho branco continua a passear folgado e com a consciência tranquila. Michael Jackson e Bernard Madoff têm ainda em comum o facto dos dois terem andado parte da sua vida a aldrabar os outros. Já se sabe como Madoff vigarizou meio mundo e como terminou num banco dos réus. Quanto a Michael Jackson e depois de todas as histórias que temos ouvido antes e depois da sua morte, estamos igualmente muito tristes com a sua pessoa e com a sua vergonha de ser ele próprio, sem disfarces, sem truques, sem esquemas e sem operações.
Até com as mulheres, os filhos e a sua sexualidade nada parece ter sido real no meio século que por aqui andou a esbanjar talento no seu género, onde de facto o "Rei da Pop" foi imbatível. Michael Jackson corre o risco de ficar na história da humanidade como uma das pessoas mais equivocadas de todo o sempre, quando teve tudo e mais alguma coisa para ser um exemplo, uma referência, uma mais valia para todos quantos o idolatraram. Já tentei compreendê-lo para além de todo o seu imenso talento artístico. Desconsegui. Dizer que ele foi vítima de uma América racista que não tolera o sucesso dos negros, não parece ser verdade no caso de MJ, que, aparentemente, como entidade moral, sucumbiu ao peso da fama e dos milhões que conseguiu arrecadar, como tantos outros que atingiram tais píncaros nos palcos da música ou nos campos do desporto. Michael Jackson foi vítima de si próprio, foi vítima de toda a tristeza de uma outra pessoa em que se converteu, por ter querido ser alguém que não era, que não podia ser. E o que ainda é mais triste em toda esta triste história é que Michael Jackson queria ser apenas branco e tudo leva a crer que tenha morrido como consequência desta sua saga inglória e absurda. Podia ter querido ser um cientista, um adivinho do futuro, um fazedor de milagres, um inventor do elixir da juventude, o super-homem ou o homem-aranha. Se tal tivesse acontecido, não teríamos, de certeza, escrito este obituário pouco simpático, com que hoje nos estamos aqui a despedir dele e a lamentar a sua morte.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

A polícia está a perder a guerra contra a criminalidade?

Nos últimos dias voltamos a ter os noticiários preenchidos (recheados) por informações bastante preocupantes relacionadas com a situação da criminalidade em Luanda e não só. Entre assaltos, agressões e homicídios, retivemos as declarações do Comandante Geral da Polícia apelando segunda-feira última (29/5) os seus pares a duplicarem os esforços das respectivas áreas e unidades em prol de um mais efectivo e eficaz combate aos meliantes do nosso desassossego. "Tudo vamos fazer para que se desenvolvam acções que possam ir ao encontro das preocupações da nossa população: a melhoria do sistema de segurança pública, em especial nas zonas suburbanas de Luanda"- prometeu Ambrósio de Lemos, o nosso “Bomboxi”. O Comandante Geral reuniu-se com o seu Estado-Maior de Luanda, isto é, com os comandantes das nove divisões que integram a mais conturbada e populosa “região militar”do país, nesta nova guerra que, quer queiramos, quer não, “já estamos com ela”. É mesmo de guerra que se trata, pois a criminalidade, não sendo um fenómeno tipicamente militar, acaba por ter manifestações muito semelhantes, particularmente ao nível da organização do confronto. Não sabemos com que estatísticas reais e outras informações mais sensíveis ao nível da “intelligence” a Policia estará neste momento a trabalhar (será mais um segredo dos deuses?), mas não temos muitas dúvidas em relação a existência de uma situação que já tem contornos alarmantes e corre o sério risco de ficar fora de controlo das autoridades. O extraordinário crescimento dos guettos de Luanda já é neste momento o grande adversário das autoridades e de qualquer estratégia de combate, que apenas tenha em conta o recurso à repressão. As tendências recentes sempre apontaram para aí, caso não houvesse uma alteração substancial na situação de pobreza, miséria e exclusão social que continua a caracterizar o quotidiano de uma percentagem significativa (muito mais de 50%) da população angolana. Pelos vistos, os tristes e dramáticos indicadores do nosso desenvolvimento humano não dão mostras de estarem a ter um comportamento mais auspicioso. Entre estes indicadores, o Índice de Gini é aquele que mais nos preocupa e que pior fala de Angola do ponto de vista que estamos aqui a tentar abordar, com todas as deficiências resultantes da nossa condição de leigos na matéria, o que não nos impede de termos o nosso voto, nesta e noutras matérias, que mexam com a estabilidade e a paz social deste país. [Índice de Gini é um instrumento utilizado para medir o grau de concentração de renda de um país, ou seja, mede a distribuição de renda entre as classes sociais segundo a renda domiciliar per capita. O seu valor varia de 0 (zero), quando não há desigualdade (a renda de todos os indivíduos tem o mesmo valor), a 1(um), quando a desigualdade é máxima (apenas um indivíduo detém toda a renda da sociedade e a renda de todos os outros indivíduos é nula)] O Relatório sobre o desempenho da economia angolana em 2008 divulgado esta semana pela Universidade Católica de Angola recorda que em 2005 “foi registado um Índice de Gini de 0,62 – senão o mais elevado do mundo, seguramente dos mais elevados do planeta – indicativo da ocorrência duma assimetria muito grande na distribuição do rendimento nacional”. O Relatório recorda ainda que é “a partir deste ano é que ocorrem as mais elevadas taxas de crescimento do Produto Interno Bruto, fazendo pressupor pela existência duma correlação entre aprofundamento da desigualdade social/aumento da riqueza nacional anual/incremento da pobreza”. A desigualdade que se regista em Angola, destaca o Relatório da UCAN, “é 2,5 vezes superior à da Noruega. Os reflexos sociais são imediatos. Na Noruega há mais cidadania, as pessoas respeitam-se e respeitam os códigos de conduta social, havendo, por conseguinte, mais espaço à afirmação do mérito e a reprovação moral dos actos desonestos e dos desvios de conduta”. O Relatório alerta ainda para o facto da região africana em que nos encontramos ser a única no mundo em que a sua população pobre (que vive com menos de dois dólares por dia) aumentará até 2030. Esta sombria perspectiva, aponta o documento, “deve ser tomada como um aviso e um alerta ao Governo angolano e a toda a sociedade, uma vez que a reversão deste flagelo social e económico é uma responsabilidade e uma obrigação de todos os cidadãos”. Da Universidade para o país real, vamos encontrar no outro lado da barricada, do crime/delinquência, pessoas inteligentes ou espertas que já perceberam que diante das actuais injustiças e fragilidades sociais do país, podem ir muito mais longe nos seus propósitos se “trabalharem” melhor, se forem mais eficazes no recrutamento de novos efectivos para as suas hostes. Afinal de contas, o seu maior aliado acaba por ser a incapacidade das políticas públicas produzirem resultados concretos a altura dos desafios e da urgência da luta contra a pobreza. Estes potenciais efectivos, tendo em conta os indicadores sociais do nosso profundo desequilíbrio, nascem e crescem rapidamente todos os dias. Estão nas paragens de toda a cidade à espera de entrar para a primeira gangue que passe por eles. E entram mesmo, por mais campanhas de sensibilização que se façam. Os candidatos ao crime não precisam de filmes. Eles precisam de ter o mínimo, primeiro para entrar para escola e depois para não abandonarem os estabelecimentos à procura de comida. Eles precisam de ter acesso ao primeiro emprego. Eles sonham com casa própria e com família. Por mais esforços que a Policia faça, a guerra contra a criminalidade não se vai vencer com mais divisões, com maior profissionalismo, com mais efectivos ou com melhor iluminação pública das artérias e vielas desta cidade. Com esta constatação não se pretende, de forma alguma, desencorajar os esforços da polícia em melhorar a acção das suas divisões e dos seus efectivos no combate à criminalidade. Longe disso, pois sabe-se que a ausência da policia ou a sua fragilização significaria o caos total nas actuais condições em que o país se encontra. Antes de mais, a criminalidade é um fenómeno difícil de erradicar em qualquer sociedade do mundo, incluindo as mais prósperas e equilibradas do ponto de vista da distribuição do rendimento. A criminalidade controla-se, sobretudo aquela que tem carácter de massas, que é a que, aparentemente, mais instabilidade social provoca, embora não seja a que produz maiores prejuízos patrimoniais, particularmente ao nível do erário público. Entre nós o combate ao chamado crime do colarinho branco (corrupção institucional) que todos os dias desvia enormes recursos do OGE para contas particulares ainda é o maior e mais complexo desafio nesta frente. Se a polícia está ou não a perder a guerra contra a criminalidade, particularmente em Luanda, só os próximos tempos o dirão. Sozinha, estamos certos, a corporação do Comandante Ambrósio tem muito poucas hipóteses de triunfar ou, pelo menos, de manter controlado o fenómeno a níveis aceitáveis para o mínimo de estabilidade e segurança que qualquer sociedade precisa para se poder desenvolver e respirar sem outras preocupações de maior com a sobrevivência física dos seus membros.
Já não é o que está a acontecer nesta altura. De outra coisa estamos igualmente certos. As actuais demolições, expulsões, esbulhos e realojamentos forçados em desertos, em nome de requalificações e de outros interesses, só podem estar a contribuir para aumentar o exército do crime e a tornar a missão da polícia cada vez mais difícil, senão mesmo impossível. Como fazer diferente (que é possível e desejável) é uma outra questão para uma outra abordagem…

domingo, 5 de julho de 2009

Cartoon do Ano

Se alguém (este ano) se lembrar de promover um concurso para o género cartoonismo, a nossa proposta para o Cartoon do Ano 2009 é este boneco da autoria do Sergio Piçarra publicado este fim de semana pelo Novo Jornal.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Relatório Económico Anual da Universidade Católica de Angola

Pelo sétimo ano consecutivo, a Universidade Católica de Angola (UCAN) através do seu Centro de Estudos e Investigação Científica (CEIC) produz o Relatório Económico de Angola, sendo a presente edição referente ao ano 2008. Contrariamente ao que vinha acontecendo em anos anteriores particularmente com o antigo Ministro das Finanças, José Pedro de Morais, desta vez e apesar do convite formulado, o CEIC não conseguiu que ninguém do Governo fizesse uma apreciação preliminar do Relatório durante a cerimónia de lançamento do Relatório que terça-feira encheu por completo o auditório da UCAN. O Relatório Económico de Angola 2008 é assim a reafirmação da vitalidade de um projecto académico independente, único no seu género ao nível da sociedade civil angolana, constituindo a sua existência um importante documento de consulta para quem esteja interessado em aprofundar a sua visão sobre o desempenho da economia nacional. Para a imprensa da especialidade, e não só, o Relatório é uma sólida e interessante referência na hora de se confrontarem dados, avaliações e perspectivas, sobretudo com a informação e a análise económica que é elaborada e divulgada pelas fontes oficiais. Infelizmente este Relatório é muito pouco consultado e utilizado pelos jornalistas, não tendo por conseguinte o mesmo, um grande impacto junto da opinião pública e publicada, como seria de desejar. Com efeito, muito poucos são os trabalhos jornalísticos, com a necessária e recomendável profundidade e abrangência, que anualmente são dedicados ao Relatório Económico da UCAN, o que traduz bem a pouca atenção que, de uma forma geral, a comunicação social dedica às questões mais complexas da vida nacional. Esta lacuna também se deve, em parte, à pouca acutilância mediática com que os organismos especializados deste país tratam a informação de interesse público que elaboram, não constituindo, propriamente, o CEIC da UCAN uma excepção. Neste âmbito o Centro tem-se limitado a uma sessão pública de apresentação do Relatório, sem se preocupar muito com outras acções de promoção junto da comunicação social que, certamente, levariam os jornalistas a darem um outro tratamento ao seu conteúdo no âmbito da disseminação de uma informação de reconhecido interesse para o esclarecimento da opinião pública.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

(Flashback Julho/2007)-O sermão do Frei João Domingos dirigido aos nossos peixes trungungueiros

Em Angola crescem as preocupações em relação à forma menos transparente e pacífica como uma minoria de angolanos, que se confunde com o próprio poder político, tem estado a acumular riqueza. Esta movimentação está a acontecer num contexto socio-económico marcado pela existência de uma enorme mancha de pobreza, miséria, desemprego e criminalidade que não dá mostras evidentes de estar a recuar. O mais recente alerta para esta chocante e contraditória realidade foi feito no último fim-de-semana pelo frei dominicano João Domingos na homilia que proferiu domingo numa das igrejas da capital angolana. João Domingos, de nacionalidade portuguesa, a dirigir neste momento uma das mais importantes instituições educativas da igreja católica em Luanda, tem-se destacado neste tipo de abordagens pela profundidade com que equaciona o problema da riqueza versus pobreza, sobretudo em termos de consequências negativas para o equilíbrio social e a paz nacional. É fácil perceber nas suas palavras a grande preocupação com o que poderá vir a ser a reacção menos controlada das populações mais pobres em Angola diante da ofensiva dos ricos resguardados pelo poder político. Uma ofensiva que agora tem na ocupação das terras quer urbanas quer rurais, um pouco por todo o país, a sua principal linha de força, de ataque, já com bastante violência à mistura e algumas vítimas a lamentar. João Domingos, o “Frei dos Pobres” como já foi apelidado por alguma imprensa luandense, voltou no passado domingo a falar da insatisfação dos pobres pela forma como as terras mais produtivas e mais rentáveis têm estado a passar para o domínio da propriedade privada dos novos ricos angolanos. “Nós estamos a assistir a ambição da grandeza, a ambição da riqueza, que não olha aos pequenos, que não olha aos pobres. É assim que queremos um país em paz? Achamos que assim o povo vai ficar caladinho e feliz? O povo não pode estar feliz, porque ele vê, tem olhos abertos, está a ver…” No que toca à gestão das terras, Frei João Domingos chegou ao ponto no seu sermão de dar alguns conselhos mais técnicos aos ricos para deixarem alguma coisa para os pobres, algumas migalhas de terra. “Dizem que só os ricos é que podem fazer produzir as grandes terras. Muito bem, mas por favor deixem a terra perto das aldeias, perto das vilas ao povo, para que ele cultive perto de casa. Não se canse nos caminhos, não ande com pesos às costas tantos quilómetros. A terra junto às populações devia ser respeitada para as populações. E a esses grandes ricos então, outras terras, mais longe, onde eles podem ir de carro, podem ir de tractor. É mais fácil para eles andar longe, do que o povo andar a pé tantos quilómetros.” Frei João Domingos da Igreja Católica preocupado com o processo de enriquecimento em Angola, tendo como referência principal a forma como as terras urbanas e rurais têm estado a passar para as mãos de uma minoria de angolanos em detrimento dos interesses e direitos da maioria. A semana passada uma outra voz afecta a igreja católica manifestou idênticas preocupações com o comportamento do binómio riqueza/pobreza em Angola. No mais recente relatório sobre a economia angolana, os investigadores da UCAN consideram que, neste contexto, tem sido pernicioso o papel do poder político ao reservar as melhores oportunidades à aristocracia que se instalou na sua órbita de influência. O Relatório diz claramente que o Governo é responsável pela situação de pobreza por não estar a democratizar as oportunidades de enriquecimento. Nunca é demais alertar os “nossos trungungueiros” para esta preocupante realidade embora saibamos que o sermão do Frei João Domingos parece semelhante aquele que o seu patrício, um tal de Padre António Vieira, fez há mais de 400 anos no Brasil dirigido aos peixes. “Vós, diz Cristo, Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa da corrupção? Ou é porque o sal não salga ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma coisa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. Não é tudo isto verdade? Ainda mal!” De sermões hoje estamos conversados. Só esperamos é que o comité de especialidade não resolva agora incluir o nome do Frei na lista negra das associações e ongs nacionais e estrangeiras que dentro de mais alguns meses vão deixar de poder sobrevoar no nosso espaço rasteiro sócio-politico por não estarem em conformidade com a cartilha oficial que se prega em Luanda. (Julho-2007)