segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

"Estou cansado das vossas chantagens e humilhações"

Este fim-de-semana, foram vários os órgãos afectos à comunicação social não controlada pelo regime, que deram à estampa a carta-memorando datada de 29 de Novembro que o "militante livre do MPLA", Marcolino José Carlos Moco, escreveu ao então SG do MPLA, Julião Mateus Paulo (Dino Matrosse), na sequência do recente encontro mantido pelos dois, nas instalações da Assembleia Nacional.
Como também somos um blogue não controlado pelo regime, decidimos neste espaço dar igualmente notícia do conteúdo da referida correspondência, através da transcrição de algumas das suas mais palpitantes passagens, que são de facto impróprias para alguns "cardíacos" do EME que andam por aí a tentar calar-nos a boca.
Seria bom que toda esta energia censória fosse agora utilizada no decorrer do 6º Congresso para outros efeitos, bem mais nobres e bem mais de acordo com os desafios que o país tem pela frente, sete anos depois das armas se terem calado.
É de militantes livres como Marcolino Moco, que o EME tem necessidade, porque já tem demasiados dos outros, daqueles que entram nas reuniões mudos e saem de lá calados e que, pelos vistos, são a maioria esamagadora.
São aqueles que "não falam política"...
(...)
" Fica claro que como docente, conferencista e cidadão, ninguém, mas absolutamente ninguém, me obrigará a distorcer as minhas convicções científicas, a favor de ideias de um partido qualquer, por mais maioritário que seja e por mais da minha cor que seja. É aí que vocês inventam que eu falo mal do Presidente do Partido, quando as referências são feitas a um cidadão que é Chefe de Estado e especialmente na sua qualidade de Chefe de Governo, num momento importante, em que todos nós temos o dever cívico de contribuir sem medo.
(...)
Espero nunca mais ser perturbado quando falar, nas minhas vestes de cidadão e estudioso do Direito. Se a questão é alguma comunicação social, que ainda não se vergou às vossas pressões, andar a divulgar as minhas ideias, o problema não é meu. Mandem fechar tudo o que não fale a vosso favor e deixem-me em paz.
(...)
Olhem à volta e vejam como arrastam o MPLA à situação de ser o mais retrógrado dos então chamados partidos progressistas de África! Incapazes de perdoar, do fundo do coração (já nem falo da UNITA e dos chamados ‹‹fraccionistas››) até os próprios fundadores do nosso glorioso Partido, como os irmãos e primos Pinto de Andrade; e um Viriato da Cruz, de cujo punho brotaram estrofes esplendorosas, para uma África chorosa mas em ‹‹busca da liberdade››, usando palavras de outro vate da liberdade; o Viriato da pena leve e elegante que riscou o próprio ‹‹Manifesto››, donde nasceria uma das mais notáveis siglas da humanidade; sigla que vocês vão, hoje, transmitindo às novas gerações, como o símbolo do culto e da correria atrás de enxurradas de dinheiro e de honrarias balofas! Triste espectáculo que fingem não ver!
(...)
Política, na verdade, diversamente do que vocês querem impor, contrariando (mesmo neste tempo de democracia pluralista), o grande Agostinho Neto, que disse não dever ser um assunto de ‹‹meia dúzia de políticos››, terá que ser, e será, inexoravelmente, uma questão fora do esoterismo a que vocês a querem submeter, em Angola. Estou cansado das vossas chantagens e humilhações. Por enquanto, é este o meu manifesto contra o medo e contra uma ditadura do silêncio que não aceito."
Marcolino Moco/29 de Novembro 2009