sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Como Fidel de Castro "alterou" a história de Angola...




 Se há uma personalidade estrangeira que nestes mais de 40 anos de independência influenciou efectivamente o rumo da história de Angola, ela chamou-se em vida Fidel Castro.

Haverá, certamente, outras que fizeram sentir o peso da sua influencia nas principais jogadas que tiveram lugar no tabuleiro angolano ao longo destas quatro décadas, mas nenhuma delas se aproximou dos calcanhares do "El Comandante", que deixou de fazer parte do mundo dos vivos sexta-feira da semana passada aos 90 anos de idade, mais de cinquenta dos quais, até 2011, a dirigir a "Ilha dos Barbudos", depois de em Janeiro de 1959 ter derrubado o regime pró-americano de Fulgêncio Baptista.

Não tenho nesta altura qualquer dúvida em afirmar que Angola hoje, começando pelo próprio MPLA, não seria a mesma se Fidel Castro não tivesse tido esta capacidade de influenciar tão directamente a história da jovem nação africana, desde os primeiros anos da sua independência.

Deixando de lado as questões militares e o envolvimento de Cuba nas sucessivas etapas que foi conhecendo o conflito, falo antes de mais da sua influencia política, tendo como referência o já distante e nevrálgico ano de 1977, quando pela primeira vez Fidel Castro esteve em Angola e já consciente da crise interna latente em que estava mergulhado o MPLA,  declarou todo o seu apoio pessoal a Agostinho Neto.

Desta visita, nunca me esqueci da grande e estratégica orientação que ele deixou para o corpo expedicionário cubano presente no país plasmada na palavra de ordem: "Defender Neto é defender a Revolução".

Também não tenho qualquer dúvida em afirmar que os acontecimentos do 27 de Maio de 1977 teriam um outro desfecho, bem diferente daquele que conheceu e que depois mergulhou o país numa sangrenta "caça às bruxas", se os cubanos não tivessem tomado partido ao lado dos "netistas" contra os "nitistas".

Foi a entrada em acção dos militares cubanos naquele dia que inverteu completamente a marcha dos acontecimentos, numa altura em que a RNA já antecipava a iminente alteração do "status quo" vigente a favor da denominada "insurreição popular" que estava em marcha e já sem grandes resistências pela frente.

Foi, aliás, através dos microfones da própria RNA e em primeira mão, que todos nós na época tomamos conhecimento da entrada em força dos cubanos no teatro dos acontecimentos no dia 27 de Maio.

Ríspidas e alteradas vozes falando em castelhano foram bem audíveis por entre choros, durante a operação dentro do próprio estúdio de emissão que culminou com a retirada do controlo que os "nitistas" até então tinham sobre a emissora governamental, através da qual o país acompanhou as duas ou três horas que durou a fracassada tentativa.

Caso os cubanos tivessem observado uma outra postura no dia 27 de Maio de 1977, mais neutral, embora hoje, a esta distância, já seja mais fácil admitir este cenário, de facto o país teria conhecido um outro rumo que levaria Angola a conhecer uma outra trajectória, uma outra história.

O responsável por esta intervenção dos cubanos em Angola só pode ter sido uma pessoa.
Provavelmente, só nessa altura as pessoas perceberam melhor o alcance do apoio a Agostinho Neto que Fidel  Castro fizera questão de anunciar uns meses antes, durante a primeira visita realizada ao nosso país.






Diante dos acontecimentos, não há aqui qualquer sofisma neste relacionamento, que só não é assumido por quem dele mais beneficiou na extraordinária dimensão que  teve, por razões que se percebem, mas que não terão muito a ver com a realidade dos factos vividos na conturbada época.

Foi no final deste ano de 1997, em Dezembro, que o MPLA, no seu histórico 1º Congresso, deixou de ser um movimento de massas para se transformar num partido marxista-leninista puro e duro, com todas as consequências internas e externas que esta "evolução" teve na forma como o país passou então a ser governado.

O discurso da época de Agostinho Neto referia que o MPLA-Partido do Trabalho nasceu sob o olhar silencioso de Lenine.

Pura retórica.

Em abono da verdade, tudo o que se passou naqueles primeiros anos da independência aconteceu sob o olhar omnipresente de Fidel Castro através das suas "antenas" que se movimentavam no território angolano.
Presentes na altura, já estavam desdobrados dezenas de milhares de militares e civis cubanos, que apoiavam o Governo de Agostinho Neto em todas as dimensões de uma apertada conjuntura politico-militar, onde o desafio da guerra se mantinha intenso, mesmo depois da primeira retirada das forças invasoras da África do Sul em Março de 1976.

Muito já foi dito/escrito sobre Fidel Castro nestes últimos dias, desde que o mais conhecido revolucionário dos nossos tempos que ainda se encontrava em vida deixou definitivamente o  nosso mundo.

Haverá provavelmente ainda mais alguma tinta a ser gasta a seu respeito e com alguma justificação.

Desta tinta que ainda está por utilizar, parte dela a nosso conselho deveria ser gasta a escrever/investigar sobre o decisivo papel que Fidel Castro jogou em Angola até a retirada das suas tropas por força dos Acordos Quadripartidos de Nova-Yorque assinados em 1988.
Sabendo que Angola e Cuba não são países que disponibilizam os seus arquivos oficiais para os investigadores saciarem a sua curiosidade, mais justificado se torna ainda este conselho. 

Reginaldo Silva/Rede Angola (Novembro 2016)