segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Dois anos depois, tudo LAC?

 Já se passaram dois anos, desde que surgiu entre nós a primeira rádio privada a quebrar o asfixiante monopólio que a Rádio Nacional detinha nesta área da comunicação social, embora na verdade tenha sido a Vorgan da UNITA a pioneira desta concorrência sempre salutar entre os diferentes órgãos de Informação não importa a conjuntura e os valores que estejam em jogo, sobretudo do ponto de vista dos interesses políticos.


As rádios, para além da informação e música, também transmitem e defendem ideias, fazem propaganda, participam directa ou indirectamente nas diferentes batalhas pela conquista e manutenção do poder político. São elas aliás as que melhor servem as diversas campanhas políticas, sobretudo em situações sociais marcadas por fortes taxas de analfabetismo das suas populações, como é o caso de Angola, onde a rádio é meio de comunicação social por excelência, pois a cobertura do país pela televisão está ainda muitíssimo longe de ser a ideal e pelo andar da carruagem não o será tão cedo.


Não o será até pela simples razão das autoridades se recusarem a encarar o princípio da liberalização da transmissão televisiva o que nos parece francamente negativo e revelador de uma postura nada consentânea com os novos ventos que já se transformaram no nosso próprio oxigénio, pelo menos teoricamente.


De facto já não é possível e muito menos coerente defender qualquer tipo de monopólio na comunicação social à luz de uma filosofia política que se pretende democrática e pluralista como é aquela que está definida na nossa constituição.


Conforme aconteceu com a rádio, embora ainda estejamos limitados à concorrência da rede LAC que, para além de Luanda, tem já as suas antenas em Cabinda, Benguela e no Lubango, a televisão também tem que se abrir à participação dos privados, pois do ponto de vista do direito justifica que a TPA continue a dominar os nossos pequenos ecrans.


Tal como se verificou com a Rádio Nacional, a TPA também tem que aprender a lidar com a concorrência, pois só assim ela se poderá desenvolver e melhorar as suas performances, que nesta altura são assustadoramente pobres e cada vez mais decepcionantes quer ao nível da informação como da programação. A TPA não tem qualquer estímulo para evoluir e crescer, tornando-se cada vez mais esbelta e atraente. Limita-se a engordar, a envelhecer e por vezes a maçar-nos, mais do que a divertir-nos, o que não quer dizer que o seu produto seja completamente despido de valor e não esteja a ser consumido por nós. Que outra solução também para quem não tenha uma parabólica, um vídeo ou um segundo canal.


A TPA precisa urgentemente de ser confrontada com a concorrência de pessoas mais jovens e criativas que estão aí preparadas para mostrarem o seu valor o que só ainda não aconteceu porque as "forças de bloqueio" que a protegem na sua inércia e domínio absoluto, não permitem que tal confronto venha a ter lugar, com argumentos que só "convencem" pela razão da sua força bruta e não pela força das suas razões aceitáveis.


Em relação às rádios e dois anos depois da LAC e das suas congéneres terem entrado para o nosso convívio diário, a questão que hoje se coloca tem a ver com as razões que explicarão o facto de até ao momento ainda não terem surgido outras rádios privadas. A questão não é nova, já por diversas vezes aqui a colocámos, mas voltamos à vaca fria, por ocasião deste segundo aniversário da LAC, por julgarmos estranho que até ao momento mais nenhuma rádio tenha surgido. Esta questão e as outras que aqui deixamos implícitas como sempre têm por destinatário principal o primeiro prédio da Avenida dos Combatentes, do lado direito a contar do Marçal, onde mora o "tolerante" Sr. Hendrick Vaal Neto que continua a reduzir a discussão dos problemas da liberdade de imprensa à sua "boa vontade" de permitir sem outras consequências, provavelmente físicas, uns reparos e observações por parte daqueles que têm a ousadia de os colocar frontalmente, fazendo-lhe no fundo um pequeno favor que ele tão "pragmaticamente" sabe utilizar em prol da sua tese.


A problemática da liberdade de Imprensa, uma discussão permanente e actual em todas as partes do mundo, mesmo lá onde ela já está devidamente equacionada e garantida, que não está muito longe de ser o caso de Angola, continua a ser encarada pelo nosso nóvel ministro como sendo apenas uma questão de "tolerância e generosidade" por parte dos poderes estabelecidos.


Fazendo como sempre recurso as subtilezas e falácias do raciocínio sofismático, Vaal Neto disse uma vez mais em Benguela que em Angola há liberdade de imprensa. Aliás somos na sua opinião um verdadeiro paraíso neste domínio, pois só a simples razão de se questionar publicamente a sua ausência já é uma prova de que ela existe.


Mas logo a seguir Vaal Neto fecha completamente as portas à liberdade de imprensa, que tem como um dos seus pilares fundamentais a quebra do monopólio, quando nem sequer admite que nos próximos tempos os angolanos possam ter direito a mais um canal de televisão, que não apenas este que actualmente nos é oferecido pela TPA. Mas logo a seguir o ministro diz-nos que o Governo não tem nada contra tal perspectiva só que é necessário reformular toda a legislação existente como se tal tarefa constituísse por si só um grande obstáculo, a não ser que efectivamente não existe qualquer vontade política o que parece ser o caso.


Vaal Neto não parece, por outro lado, nada preocupado em promover ou apoiar o surgimento de uma imprensa plural entre nós, pois até agora não nos lembramos de ter ouvido da sua boca uma referência pública à questão da reabilitação e privatização do parque gráfico e a necessidade do Estado subvencionar a importação de papel e outros gastáveis necessários à imprensa de jornais e revistas.


Vaal Neto tem nas suas mãos uma lei de Imprensa cheia de buracos por falta de regulamentação de alguns dos seus aspectos fundamentais como é, nomeadamente, a questão do exercício privado da radiodifusão e até agora pelo que julgamos saber nada ainda foi feito em tal direcção, a explicar possivelmente o facto de até agora não terem surgido outras rádios privadas para além da rede LAC, cuja cobertura legal ainda estamos para descobrir, mas está bem, tudo LAC!


Vaal Neto foi incapaz de integrar numa delegação da comunicação social angolana que recentemente esteve no Brasil a discutir acordos de cooperação com um representante do sector privado e muito menos estender os benefícios de tais acordos sobretudo no domínio da formação aos jornalistas que não estejam a trabalhar nos órgãos estatais. Ou será que desta vez vai ser diferente?


Por fim sobram os correspondentes que já não são todos mercenários. Apenas um ou outro que não lhe agradam pessoalmente o que tem a ver com a sua opção editorial "menos patriótica", embora ele reconheça que cada um é livre de optar pela sua própria linha de actuação. Qualquer dia ainda o havemos de propor para ocupar o lugar de figura tutelar do nosso patriotismo, uma espécie de vigilante de todos os desvios de uma linha editorial patriótica que ele entretanto deveria desde já elaborar e colocar à consideração da classe.


Mas finalmente resta-nos ainda o próprio Ministério da Comunicação Social uma espécie em vias de extinção, que acaba recentemente de ver em Moçambique mais um dos seus raros colegas ir desta para melhor. Paz à sua alma..


Por último, os nossos parabéns à LAC pela passagem do seu segundo aniversário que coincidiu com a saída do Ismael e da Paula que resolveram ir estudar lá fora, deixando vagos dois lugares que dificilmente serão preenchidos com a garra e a entrega daqueles dois profissionais, que muito têm a ver com o sucesso do projecto que hoje é a realidade LAC, com todos os altos e baixos, que entretanto foram já suficientes para demonstrar são os benefícios da concorrência.


Dois anos depois, tudo LAC.

W.D.

In "Correio da Semana/Edição Nº39 de 25 a 1 de Outubro de 1994"


sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Como Fidel de Castro "alterou" a história de Angola...




 Se há uma personalidade estrangeira que nestes mais de 40 anos de independência influenciou efectivamente o rumo da história de Angola, ela chamou-se em vida Fidel Castro.

Haverá, certamente, outras que fizeram sentir o peso da sua influencia nas principais jogadas que tiveram lugar no tabuleiro angolano ao longo destas quatro décadas, mas nenhuma delas se aproximou dos calcanhares do "El Comandante", que deixou de fazer parte do mundo dos vivos sexta-feira da semana passada aos 90 anos de idade, mais de cinquenta dos quais, até 2011, a dirigir a "Ilha dos Barbudos", depois de em Janeiro de 1959 ter derrubado o regime pró-americano de Fulgêncio Baptista.

Não tenho nesta altura qualquer dúvida em afirmar que Angola hoje, começando pelo próprio MPLA, não seria a mesma se Fidel Castro não tivesse tido esta capacidade de influenciar tão directamente a história da jovem nação africana, desde os primeiros anos da sua independência.

Deixando de lado as questões militares e o envolvimento de Cuba nas sucessivas etapas que foi conhecendo o conflito, falo antes de mais da sua influencia política, tendo como referência o já distante e nevrálgico ano de 1977, quando pela primeira vez Fidel Castro esteve em Angola e já consciente da crise interna latente em que estava mergulhado o MPLA,  declarou todo o seu apoio pessoal a Agostinho Neto.

Desta visita, nunca me esqueci da grande e estratégica orientação que ele deixou para o corpo expedicionário cubano presente no país plasmada na palavra de ordem: "Defender Neto é defender a Revolução".

Também não tenho qualquer dúvida em afirmar que os acontecimentos do 27 de Maio de 1977 teriam um outro desfecho, bem diferente daquele que conheceu e que depois mergulhou o país numa sangrenta "caça às bruxas", se os cubanos não tivessem tomado partido ao lado dos "netistas" contra os "nitistas".

Foi a entrada em acção dos militares cubanos naquele dia que inverteu completamente a marcha dos acontecimentos, numa altura em que a RNA já antecipava a iminente alteração do "status quo" vigente a favor da denominada "insurreição popular" que estava em marcha e já sem grandes resistências pela frente.

Foi, aliás, através dos microfones da própria RNA e em primeira mão, que todos nós na época tomamos conhecimento da entrada em força dos cubanos no teatro dos acontecimentos no dia 27 de Maio.

Ríspidas e alteradas vozes falando em castelhano foram bem audíveis por entre choros, durante a operação dentro do próprio estúdio de emissão que culminou com a retirada do controlo que os "nitistas" até então tinham sobre a emissora governamental, através da qual o país acompanhou as duas ou três horas que durou a fracassada tentativa.

Caso os cubanos tivessem observado uma outra postura no dia 27 de Maio de 1977, mais neutral, embora hoje, a esta distância, já seja mais fácil admitir este cenário, de facto o país teria conhecido um outro rumo que levaria Angola a conhecer uma outra trajectória, uma outra história.

O responsável por esta intervenção dos cubanos em Angola só pode ter sido uma pessoa.
Provavelmente, só nessa altura as pessoas perceberam melhor o alcance do apoio a Agostinho Neto que Fidel  Castro fizera questão de anunciar uns meses antes, durante a primeira visita realizada ao nosso país.






Diante dos acontecimentos, não há aqui qualquer sofisma neste relacionamento, que só não é assumido por quem dele mais beneficiou na extraordinária dimensão que  teve, por razões que se percebem, mas que não terão muito a ver com a realidade dos factos vividos na conturbada época.

Foi no final deste ano de 1997, em Dezembro, que o MPLA, no seu histórico 1º Congresso, deixou de ser um movimento de massas para se transformar num partido marxista-leninista puro e duro, com todas as consequências internas e externas que esta "evolução" teve na forma como o país passou então a ser governado.

O discurso da época de Agostinho Neto referia que o MPLA-Partido do Trabalho nasceu sob o olhar silencioso de Lenine.

Pura retórica.

Em abono da verdade, tudo o que se passou naqueles primeiros anos da independência aconteceu sob o olhar omnipresente de Fidel Castro através das suas "antenas" que se movimentavam no território angolano.
Presentes na altura, já estavam desdobrados dezenas de milhares de militares e civis cubanos, que apoiavam o Governo de Agostinho Neto em todas as dimensões de uma apertada conjuntura politico-militar, onde o desafio da guerra se mantinha intenso, mesmo depois da primeira retirada das forças invasoras da África do Sul em Março de 1976.

Muito já foi dito/escrito sobre Fidel Castro nestes últimos dias, desde que o mais conhecido revolucionário dos nossos tempos que ainda se encontrava em vida deixou definitivamente o  nosso mundo.

Haverá provavelmente ainda mais alguma tinta a ser gasta a seu respeito e com alguma justificação.

Desta tinta que ainda está por utilizar, parte dela a nosso conselho deveria ser gasta a escrever/investigar sobre o decisivo papel que Fidel Castro jogou em Angola até a retirada das suas tropas por força dos Acordos Quadripartidos de Nova-Yorque assinados em 1988.
Sabendo que Angola e Cuba não são países que disponibilizam os seus arquivos oficiais para os investigadores saciarem a sua curiosidade, mais justificado se torna ainda este conselho. 

Reginaldo Silva/Rede Angola (Novembro 2016)



 

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

JES perdeu (mesmo) a última batalha


 

Há cerca de dez anos quando partilhei num dos semanários de Luanda, no caso o já desaparecido “A Capital”, as minhas reflexões sobre o futuro de JES numa altura em que ele assinalava os 30 anos da sua entronização escrevi o seguinte:

Com todas as críticas que se possam fazer ao seu percurso e que são mais do que muitas e depois de ter vencido e derrotado todos seus adversários e inimigos, o “campeão” JES enfrenta agora o seu maior desafio de sempre nas pistas conflituosas de um país que ainda não se reencontrou.

Sair agora e bem por cima ou continuar no poder por mais 15 anos, isto é, até aos 82 anos, sem saber muito bem como vai lá chegar e como depois deverá sair e ser recordado.

Receamos que JES venha a escolher a segunda opção.
Escrevi anos depois já não me lembro bem quando nem onde, acho que também foi no mesmo semanário, que o “campeão JES” depois de ter vencido todas as batalhas da sua vida como Presidente deste país e Líder do MPLA, arriscava-se a perder a última, que era a batalha da sua própria sucessão.
E arriscava-se a ter de colecionar esta última derrota, segundo pensava eu na altura, porque não via JES realmente preocupado em preparar a sua sucessão sem mais hesitações nem manobras dilatórias.

Não estando de facto empenhado em preparar esta transição receava que ele pudesse ser surpreendido pelas partidas da vida que, a certa altura da nossa trajectória terrena, com o avançar da idade cronológica, se tornam cada vez mais frequentes e de consequências imprevisíveis.
É a altura em que começamos a viver um dia de cada vez.
Ao vê-lo partir no último sábado com três medalhas ao peito com que os seus correligionários quiseram reconhecer e homenagear a sua liderança, não tive muitas dúvidas em concluir que ele tinha mesmo perdido a última batalha da sua vida, mas não pelas razões que eu tinha alimentado quando inicialmente assim pensei e escrevi no tal semanário, já lá vão alguns anos.
A causa desta derradeira derrota tem a ver com tudo quanto de extraordinário aconteceu no último ano, desde que o “jovem” João Lourenço tomou posse como terceiro Presidente de uma República que nasceu “Popular” e em guerra civil e que hoje pode estar finalmente a conhecer a tão aguardada transição democrática do pós-guerra, rumo a um futuro realmente republicano que todos sabem qual é e como deve ser, mas que ainda nem todos acreditam que lá possamos chegar, sem mais regressos ao passado.

Não temos também nesta altura já muitas dúvidas em concluir que não era este o sucessor que JES voltaria a indicar e apoiar se o tempo pudesse voltar para trás, com todas as memórias que então foram sendo acumuladas neste ano em que um verdadeiro furacão político, no melhor sentido que esta turbulência pode significar no nosso contexto, tomou conta do país inteiro diante da surpresa de todos que de facto não acreditavam que João Lourenço pudesse ir tão longe em tão pouco tempo na ruptura que tem vindo a efectuar com a toda a herança “eduardista”.
Está de facto em curso aquilo que poderíamos, sem qualquer exagero, designar por “desduardização” do país, num contexto que tem algo de surreal, de espantoso mesmo, a tal ponto que um amigo meu comparou o processo em curso a um novo 25 de Abril só para Angola.

Aí já acho que existe algum exagero, mas nada que não faça sentido.
Acredito que se o tempo pudesse fazer este regresso impossível não teríamos a transição em curso, mesmo que JES fizesse uma outra aposta ou decidisse candidatar-se a mais um mandato, como se calhar lhe devem ter aconselhado os seus mais próximos receosos com o “day after”.

JES perdeu a última batalha porque de facto acreditou que era possível, com todo o peso dos seus 38 anos de poder (quase) absoluto, continuar a mandar no país, mesmo estando afastado já do poder.

Primeiro, se calhar, ainda pensou seriamente em manter este controlo mais apertado através da liderança do MPLA no âmbito do prolongamento de uma bicefalia atípica, que cedo se revelou potencialmente conflituosa e ameaçadora da própria unidade do partido no poder e que finalmente já pertence ao passado depois do Congresso Extraordinário realizado sábado último.

Uma das “provas” que assim pensou, foi toda aquela frenética movimentação legislativa que protagonizou, através dos sucessivos decretos que foram exarados nas últimas semanas do seu mandato e já depois da realização das eleições de 23 de Agosto de 2017.
Uma movimentação que visava, claramente, condicionar a gestão do seu sucessor em vários domínios, amarrando-o completamente ao passado recente, o que não se verificou, tendo acontecido exactamente o contrário, com João Lourenço a levar até às últimas consequências o principal slogan da campanha eleitoral do MPLA que era e continua a ser “Melhorar o que está bem, Corrigir o que está mal”.

Fomos dos primeiros a interrogar-nos o ano passado, ainda durante a campanha eleitoral sobre o que é que estava mal no meio de tantas “maldades” e o que é que era preciso mudar urgentemente.

O que está em causa nestes anos todos da governação do MPLA no pós- Guerra, escrevemos na altura, é de facto um modelo de desenvolvimento controlado por uma estratégia política que apostou no enriquecimento de uma elite empresarial local que mesmo assim é incapaz de sobreviver sem os continuados apoios, isenções e evasões.

Vaticinamos que o Executivo/MPLA de João Lourenço se quisesse ser diferente do de JES teria efectivamente de fazer algumas rupturas muito sensíveis com o passado.
É o que está a acontecer, no âmbito daquilo que já considerei ser uma desminagem do terreno herdado dos 38 anos de “eduardismo”.

JES perdeu a última batalha porque no seu entender, o seu sucessor não devia efectivamente governar com a sua própria cabeça e muito menos mexer num conjunto de situações que ele queria transformar numa espécie de “cláusulas pétreas”, do tipo “nem pensar, não toques aí que isto pertence ao chefe”.
Lembrei-me do que aconteceu na vizinha Zâmbia com Frederick Chiluba.

JES perdeu a última batalha porque deitou a tudo a perder, quando tinha tudo a ganhar se aceitasse a realidade de um país que de facto estava cansado da forma como ele governou nos últimos 15 anos do pós-Guerra.
E aceitar esta realidade, que agora está em transformação, também era de facto aconselhar melhor todos aqueles que beneficiaram directamente da sua “generosidade” a terem uma outra postura no relacionamento com o seu sucessor e com o próprio país.
JES perdeu a última batalha, perdoem-me a frontalidade, porque acreditou que o país tinha mesmo dono e que o dono era ele e os seus herdeiros.

Reginaldo Silva/Novo Jornal (Setembro 2018)

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

A minha história com o "Jornal de Angola"

 






-Cinquenta anos depois, que lembranças do momento e a forma como entrou para o Jornal de Angola? Como decorreu a integração e adaptação?

Reginaldo Silva (RS)-  Já não tenho na memória como aconteceu o primeiro dia do meu contacto com o “Jornal de Angola” (JA), mas acho que foi em entre Janeiro e Fevereiro de 1977.
Do que me lembro bem é que regressei a Angola na primeira quinzena de Dezembro de 1976 proveniente de Berlin/RDA onde durante pouco mais de 3 meses, com caracter intensivo, fiz a minha primeira formação jornalística a partir de Setembro desse ano. Na altura já tinha deixado a Rádio Nacional de Angola (RNA) tendo ingressado nos quadros do “Diário de Luanda” (DL) na segunda quinzena de Março, se a memória não me atraiçoa. Foi pois o “Diário de Luanda”, na altura dirigido pelo meu amigo Vergílio Frutuoso, que me deu esta oportunidade inicial de formação que foi de uma extraordinária importância para a minha carreira profissional. Após o meu regresso a Luanda encontrei quase tudo no mesmo sítio menos o próprio Diário de Luanda (DL) que por razões políticas tinha sido encerrado já no âmbito da luta de tendências que caracterizava o debate interno no seio do MPLA.

O pessoal afecto ao DL foi encaminhado para outros órgãos, tendo eu ido parar à Revista Novembro que foi criada como alternativa ao extinto DL. O projecto que não tinha ainda uma periodicidade definida não me agradou nem um bocado por falta de actividade diária, pelo que na época a única alternativa que me restava era o Jornal de Angola.
Como já referi, não me lembro como é que se deu a minha entrada no JA, ou seja, se a iniciativa foi minha ou se fui convidado por alguém a ir trabalhar lá.
Que me lembre, inicialmente não tive qualquer problema de integração profissional, embora na época já se estivesse a adensar o clima político no seio do MPLA depois da realização em Outubro de 1976 da 3ª Reunião Plenária do seu Comité Central com todas as consequências visíveis no seio da sociedade. Nessa reunião Nito Alves e José Van-Duném foram suspensos tendo-lhes sido instaurado um inquérito interno relacionado com a existência ou não de fraccionismo no seio do movimento. Sendo eu proveniente do Diário de Luanda acho que fui desde logo conotado politicamente com a tendência afecta ao Nito Alves, o que me colocou na lista dos suspeitos, situação que se foi agravando até aos trágicos acontecimentos do 27 de Maio de 1977. Na época era o único jornalista na redacção do JA a ser visto pela sua direcção e pelos colegas com o rótulo de “nitista” ou “fraccionista”. Abertamente ninguém me dizia nada, mas eu sentia que as pessoas não gostavam de mim por esta razão.

-Que Jornal de Angola encontrou, com que estrutura organizacional e linha editorial naquela altura?

RS- Antes de mais encontrei a redação do JA no prédio ao lado que era de um outro jornal diário denominado, “O Comércio” que existiu no tempo colonial mas não conseguiu sobreviver, embora ainda tenha sido editado durante algum tempo depois do 25 de Abril de 1974.
Tratou-se de uma mudança que foi forçada pelo ataque à bomba que em meados 75 destruiu parcialmente as suas instalações que são as actuais. Foi neste local que eu trabalhei durante o tempo todo que estive no JA até ao dia 28 de Maio de 1977, quando fui preso em plena redacção do jornal.

Naquela altura em 1977 o país já vivia em regime de partido único, pelo que editorialmente toda a comunicação social estava em perfeita sintonia  com a estratégia política do Governo do MPLA, não havendo por conseguinte da parte do Jornal de Angola uma intervenção diferente que fosse minimamente independente do poder político.

Como o país já estava a viver o processo político que viria a desembocar no 27 de Maio e havendo claramente uma luta de tendências no seio do MPLA, editorialmente o JA sempre se destacou como sendo o órgão que mais atacava os dirigentes da tendência afecta a Nito Alves e José Van-Duném, tendo ficado na história pelos seus editorias inflamados que o seu Director da época elaborava e publicava.

Para além de Costa de Andrade (Ndunduma) que era o Director, a segunda pessoa da hierarquia era o Júlio Guerra enquanto Chefe de Redacção e com quem mais directamente me relacionava como jornalista. Conservo do Júlio Guerra as melhores recordações, não podendo dizer o mesmo do primeiro por tudo quanto de menos positivo marcou a minha actividade durante aqueles poucos meses em que trabalhei no JA. 

-Como foi a mudança e adaptação da rádio para o jornal, na medida em que se sabe que Reginaldo Silva iniciou a sua carreira de Jornalismo na Rádio Nacional de Angola em 1975?

RS- A Radio foi de facto em Setembro de 1975 a minha porta de entrada na comunicação social e no jornalismo, tendo os meus primeiros passos sido dados como locutor de cabine que também era chamado de locutor de continuidade.
Tal como tive a oportunidade de recordar em Fevereiro último na minha página do Facebook, o meu baptismo de jornalismo viria a acontecer cerca de quatro meses depois por ocasião da primeira visita oficial que o Presidente da República Popular de Angola, Dr. Agostinho Neto, realizou ao estrangeiro com a sua deslocação ao Congo- Brazaville.
Por incrível que pareça fiz a minha estreia no jornalismo como repórter com uma cobertura internacional a todos os títulos histórica para a Angola.
E que cobertura!


A minha indicação foi uma decisão tomada por Rui de Carvalho, na época Director de Programas da RNA, que deste modo fez uma aposta algo arriscada na minha pessoa e que não foi muito bem recebida por alguns colegas que se sentiam melhor preparados que eu para os devidos efeitos. 
Por outro lado eu nem sequer pertencia ao Departamento de Informação onde estavam enquadradas todas as pessoas que faziam jornalismo na Emissora. Por tudo quanto se passou naquela viagem e pela complexidade técnica que se revestiu a cobertura, foi de facto, diria mesmo, épico este meu baptismo jornalístico que se fixou na minha memória com honras de primeira página.

Foi depois desta reportagem que decidi deixar a RNA pois todos os meus esforços para ser transferido para o Departamento de Informação e para me dedicar exclusivamente à reportagem foram mal sucedidos com argumentos que já não me lembro exactamente quais eram, mas que não me convenceram minimamente.
É nesta altura que surge o convite do Vergílio Frutuoso para ir trabalhar para o Diário de Luanda que aceitei imediatamente e sem pestanejar, deixando para trás a minha primeira experiência profissional com a comunicação social que durou pouco mais de seis meses que foi tempo que estive na RNA entre Setembro de 1975 e Março de 76.
A mudança da Radio para o Jornal foi feita sem qualquer sobressalto pois na altura para além do conhecimento que tínhamos da língua portuguesa resultantes da famosa quarta classe antiga e do ensino secundário feito no Liceu, ainda nem sequer dominávamos os fundamentos do jornalismo que para mim estão basicamente concentrados na teoria dos géneros jornalísticos e a sua aplicação aos diferentes meios, falo da imprensa propriamente dita/jornais, rádio e televisão.
Fazíamos um pouco aquilo que eu hoje chamo de “jornalismo instintivo” no contexto de um país pós-colonial recentemente tornado independente, em guerra e com uma aposta claramente na revolução social. Angola chegou a ter uma lei do poder popular e a realizar eleições em Luanda para a constituição das Comissões Populares de Bairro (CPBs).

 A linguagem dos nossos textos onde os adjectivos se destacavam pela quantidade tinha muito mais de propaganda/discurso político do que de jornalismo conforme o entendemos hoje, sobretudo no que toca a princípios como a independência editorial, a objectividade e equidistância.

 -Era já jornalista do Jornal de Angola quando fez o curso intensivo de Jornalismo na Escola de Solidariedade da União dos Jornalistas Alemães, Berlim na ex-RDA, em 1976?

RS- Conforme referi o curso foi feito antes de ter sido admitido no Jornal de Angola, ou seja, durante o tempo que em 1976 trabalhei para o Diário de Luanda, que foi efectivamente a minha grande escola de jornalismo prático.

Quando começo a fazer a referida formação teórica na RDA já tinha efectivamente toda a experiência adquirida de cerca de um ano, seja na Rádio Nacional seja depois no Diário de Luanda.
Felizmente que já consegui recuperar todas matérias que então publiquei no DL com destaque para as duas grandes reportagens que realizei nas províncias de Benguela e Huambo, logo a seguir a sua libertação pelas tropas governamentais, pois as mesmas encontravam-se sob controlo das forças da UNITA e da FNLA na sequência de tudo quanto aconteceu no país depois da proclamação da independência a 11 de Novembro de 75. Foi como se sabe um acto que teve a particularidade histórica de ter acontecido em três cidades diferentes. O MPLA na voz de Agostinho Neto proclamou a “Dipanda” em Luanda, mas a UNITA e a FNLA fizeram o mesmo no Huambo e no Ambriz, salvo erro.
É com um misto de sentimentos, onde se inclui a decepção, que hoje releio os textos das duas reportagens, “Benguela ressurge dos cem dias de destruição” e “Huambo: Os primeiros seis meses de liberdade e reconstrução” que em várias edições publiquei no DL.

É uma revisitação que em termos profissionais nos permite fazer uma avaliação de como nós e o próprio jornalismo angolano fomos evoluindo nestes primeiros 50 anos de independência.



A linguagem musculada e politicamente adjectivada era de facto a imagem de marca do jornalismo dos primeiros tempos do pós-independência.
Era o tempo em que éramos mais conhecidos por “trabalhadores da informação”, como um destacado dirigente do MPLA gostava de referir, do que jornalistas propriamente ditos, o que não deixava de ser verdade.
Fazia-se informação, mas a perspectiva jornalística  que tem  identificação da verdade dos factos com todas as suas envolventes a sua grande orientação e motivação, era a grande ausente do nosso trabalho. Na verdade as coisas de lá para cá parecem não terem mudado muito.  

-Um ano depois, ocorrem os trágicos acontecimentos relacionados com o dia 27 de Maio de 1977, uma fase delicada, mas que sobre o qual importa abordar para os devidos esclarecimentos.  O que aconteceu na manhã do dia 28 de Maio de 1977 quando foi trabalhar e como passou a estar associado ao fenómeno do fraccionismo? 

RS- Como fui associado ao alegado “fraccionismo” ou “nitismo” já referi anteriormente que na sua origem terá estado o facto de eu ter trabalhado anteriormente para o extinto “Diário de Luanda” que em 1976 foi identificado como estando próximo da referida tendência, tendo nesta sequência o seu Director sido exonerado no início de Outubro. Foi neste mês e depois da Reunião do CC do MPLA que a extinção do próprio vespertino teve lugar em data que não me foi possível apurar. Acho que houve mesmo um comunicado assinado pelo então Secretário Administrativo do MPLA, Lúcio Lara, a dar conta desta draconiana decisão. Como na altura estava fora do país, tenho alguma dificuldade em estabelecer esta cronologia.
Mais importante seria ainda revisitar o conteúdo desse comunicado pois acredito que o mesmo aponta as razões que estiveram na base da decisão do Partido/Estado. É o que me ficou na memória.
Não é a primeira vez que o digo.
Para mim, a extinção do DL por razões políticas foi uma das piores decisões governamentais tomadas na época pelo seu impacto negativo no desenvolvimento do próprio jornalismo, pois a partir dessa data Angola passou a ter apenas um único jornal diário com todas as consequências que tal monopolização teve.
Mesmo num sistema politicamente controlado por uma só força partidária como era o que tínhamos depois da independência e que vigorou formalmente por cerca de 16 anos, isto é, até Setembro 1992, ter dois jornais diários sempre faria alguma diferença pela positiva quanto mais não fosse pela concorrência entre os seus profissionais que iria certamente estimular a melhoria da qualidade do produto final de cada um dos jornais.
Reitero pois, que a extinção do DL foi de facto um rude golpe no desenvolvimento da imprensa angolana no pós-independência.
Acredito que se o país continuasse a ter dois jornais diários teríamos tido um melhor jornalismo mesmo com todas as fortes limitações da liberdade de expressão impostas por uma conjuntura monopartidária.

Sobre o que me aconteceu no dia 28 de Maio de 1977 em plena redacção do JA onde recebi ordem de prisão, já por algumas ocasiões em público falei desse episódio pelo que não tenho muito mais para acrescentar em matéria de novidades.

Pelas razões consabidas no dia 27 de Maio não fui trabalhar. Se bem me lembro ainda liguei para a redacção a comunicar a minha impossibilidade de me deslocar pela cidade. Para quem foi acusado de estar no Jornal com a missão de eliminar o Director deveria ter feito tudo para ir trabalhar naquele dia.
Enfim.
Ao longo desses anos todos só acho estranho que entre os colegas que estavam presentes na redacção e foram testemunhas do facto, nenhum deles tenha querido falar do assunto em público. A maior parte deles já morreu, entretanto, mas ainda há alguns que andam por aí.

Em relação à minha prisão, não tenho qualquer dúvida, embora ele em vida tenha sempre desmentido, que foi o então Director do JA que me mandou prender na sequência de tudo quanto tinha acontecido na nossa relação pessoal/profissional.
A última conversa que tive aconteceu uns dias antes do 27 de Maio, tendo ele num dos seus livros, o “Adobes de Memória/Chegadas (II Volume)” no texto “Um caso de umbigo” (pag. 323) confirmado a mesma.

A pressa dele em acusar-me era tanta que a conversa aconteceu em andamento, isto é, no decorrer de uma boleia que me deu.

Foi no dia em que Samora Machel esteve em Luanda e eu tinha ido ao Palácio da Cidade Alta fazer a cobertura da visita. Ndunduma estava lá.

No percurso para o Jornal ele tomou a iniciativa e de facto falou-me mais ou menos nos termos em que estão referidos nas memórias publicadas no já mencionado livro. Mais concretamente disse-me que o “Camarada Onambwe” é que lhe tinha dado as informações a meu respeito, segundo as quais eu estaria envolvido com os “fraccionistas”.

Durante o trajecto disse-me (exigiu) que eu devia fazer imediatamente a minha auto-crítica porque a segurança já sabia de tudo a meu respeito.

Eu neguei-me terminantemente a aceder à solicitação do Ndunduma, tendo-lhe dito que não tinha nenhuma autocrítica para fazer, uma vez que não me sentia culpado de nada e nem me revia nas acusações que me estava a fazer.

Antes desta boleia, um outro facto relevante de que me lembro e que se enquadra na sequência que me conduziu à prisão no dia 28 de Maio foi um texto de opinião que eu escrevi.
Já não me lembro muito bem do que escrevi nesse texto, mas foi ele que pediu (para nos testar politicamente) que todos os jornalistas da redacção do Jornal de Angola escrevessem um artigo de opinião para uma coluna chamada “Fio do Prumo” que era editada na segunda página.

O meu artigo nunca foi publicado e pelo que me lembro ele nunca me explicou as razões da sua censura, pois era ele que mandava no Jornal de Angola e mais ninguém. Tenho uma vaga ideia do que escrevi, mas definitivamente não me lembro de ter feito alguma defesa de Nito Alves e muito menos do tal fraccionismo. Era um artigo em que falava sobre o debate político que se vivia na época e por aí adiante. Lamento imenso não ter ficado com uma cópia desse texto.

-Internamente, ao nível do Jornal de Angola, como se fez a gestão daquela fase menos boa da história de Angola e que impacto, jornalisticamente, teve o fenómeno do fraccionismo?

RS- Como fui preso logo no dia 28 de Maio não estou em condições de me pronunciar com a necessária propriedade sobre a forma como feita a gestão editorial do JA, nem quais eram as orientações que foram traçadas e implementadas.
Olhando para os jornais da época fica, contudo, muito fácil de concluir que se já havia muito pouco jornalismo até ao 27 de Maio, depois o jornalismo desapareceu completamente das páginas do JA sobretudo no que toca à cobertura  de toda a movimentação que se seguiu aos trágicos acontecimentos que culminaram com o brutal assassinato no Sambizanga de algumas figuras do MPLA e das FAPLA.

 

-Consta que, no final do ano em que lhe foi devolvido à liberdade, ingressou para os quadros da RNA, onde chegou a ser chefe do departamento de informação. Como descreve essa etapa?

RS-Sim foi mais ou menos isso que aconteceu, sendo importante destacar aqui que a liberdade foi-me devolvida em Fevereiro de 1979, após 21 meses de reclusão na Cadeia de São Paulo, mas de forma condicional, à semelhança do que aconteceu com todos quantos passaram pelos calabouços da DISA que depois virou MINSE.
Nenhum de nós foi julgado. Todos nós que não desaparecemos deste mundo dos vivos, como foi infelizmente o caso de milhares de jovens angolanos que foram presos antes e depois do 27 de Maio, fomos alvo de um processo político-administrativo tendo-nos sido fixadas as famosas “medidas administrativas” exactamente como a PIDE/DGS fazia no tempo do colonial-fascismo. Eu fui proibido de voltar a ter actividade jornalística, por isso não consegui regressar ao Jornal de Angola, tendo-me sido entregue uma guia de marcha para me apresentar no Dundo na delegação provincial dos transportes da Lunda-Norte.
Com o apoio da malta da Radio Nacional de Angola, que na altura já era dirigida superiormente pelo Rui de Carvalho, consegui contornar esta interdição profissional que me tinha sido imposta pela Segurança de Estado, tendo sido readmitido nos seus quadros no segundo semestre de 1979, onde permaneci até 1991/92.

Durante os cerca de 13 anos que trabalhei de forma ininterrupta para RNA fiz de tudo um bocado seja ao nível da realização de programas como da informação, onde efectivamente cheguei ao topo de hierarquia como Chefe do Departamento de Informação depois de ter chefiado a secção internacional e a redacção central do DINF.
Lamentavelmente, por desentendimentos pontuais com o então DG vi-me forçado a pedir a minha demissão após pouco mais de um ano de estar a exercer a referida função. Este período que estive na RNA foi de facto de grande intensidade laboral e afirmação/amadurecimento profissional. Foi o tempo do Telmo Augusto, mas também foi o tempo em que decidi abraçar definitivamente, como Reginaldo Silva, a independência do jornalismo com todas as suas consequências, em choque aberto com a partidarização da média pública que me valeram alguns dissabores e vários amargos de boca que dariam, certamente, para fazer uma outra entrevista.
Por desentendimentos posteriores que surgiram com a nova direcção da RNA nomeada já por Rui de Carvalho quando este assumiu em 90/91 a direcção do Ministério da Comunicação Social acabei por ter de me demitir da Emissora, encerrando a minha segunda vida com a empresa da Comandante Gika.
A partir dessa data passei a exercer a actividade jornalística na condição de free-lancer seja como correspondente da imprensa estrangeira seja como coloborador de vários projectos editoriais privados que então foram surgindo no país, onde se inclui a Emissora Católica de Angola após o seu ressurgimento em 1997.

-Quando as ligações com o Jornal de Angola foram reatadas, em que moldes e como reencontrou o único jornal diário de Angola independente?

RS- Já não me lembro exactamente nem quando, nem como as minhas relações foram reatadas com o JA após ter sido libertado em Fevereiro de 1979.  Diria que comecei a colaborar com alguma regularidade com o Jornal bem no início da década de 80, colaboração esta que se estendeu até 1991, salvo erro. Depois já no tempo do António Ribeiro e a seu convite, voltei a colaborar com o JA mas foi por muito pouco tempo.
Acredito que durante esse período, praticamente toda a década de 80, fui dos colaboradores angolanos mais regulares que o JA teve nas suas páginas/colunas, sobretudo em matérias ligadas à economia. Na altura na RNA eu era o realizador do programa semanal “Azimute-Os Novos da Nossa Economia”. Sempre achei a rádio muito ingrata por causa do conhecido adágio popular “as palavras leva-as o vento”.
Com o digital e a internet hoje não se coloca o problema que tínhamos na época pois é sempre possível as pessoas voltarem a ouvir um determinado programa de rádio quando bem entenderem.
Uma boa parte das matérias económicas que publicava no JA eram o resultado da edição em texto que fazia dos temas que abordava no Azimute com destaque para as entrevistas.

Para além disso, terei sido dos primeiros colunistas que o jornal teve.
Como jornalista sempre senti necessidade de criticar, de elogiar ou apenas de chamar a atenção da opinião pública, pelo que foram vários os textos de opinião que publiquei no JA ao longo da minha colaboração com o matutino. Da coluna que nunca me esqueci, nem me esquecerei, foi uma onde abordava a problemática do abastecimento em Luanda a que dei o título “O meu cartão normal de abastecimento”. Esta crónica valeu-me uma notificação da Segurança de Estado tendo ido lá prestar declarações sobre as motivações que me levaram a escrever sobre o assunto. 
A pessoa que me interrogou achava que eu não devia ter escrito assim porque o país estava em guerra o que podia ser aproveitado pelo inimigo. Felizmente tudo ficou por ali embora o processo de investigações tenha sido aberto pois eu assinei um auto com as minhas declarações.