-Cinquenta
anos depois, que lembranças do momento e a forma como entrou para o Jornal de
Angola? Como decorreu a integração e adaptação?
Reginaldo Silva (RS)- Já não tenho na memória como aconteceu o
primeiro dia do meu contacto com o “Jornal de Angola” (JA), mas acho que foi em
entre Janeiro e Fevereiro de 1977.
Do que me lembro bem é que regressei a Angola na primeira quinzena de Dezembro
de 1976 proveniente de Berlin/RDA onde durante pouco mais de 3 meses, com
caracter intensivo, fiz a minha primeira formação jornalística a partir de
Setembro desse ano. Na altura já tinha deixado a Rádio Nacional de Angola (RNA)
tendo ingressado nos quadros do “Diário de Luanda” (DL) na segunda quinzena de
Março, se a memória não me atraiçoa. Foi pois o “Diário de Luanda”, na altura
dirigido pelo meu amigo Vergílio Frutuoso, que me deu esta oportunidade inicial
de formação que foi de uma extraordinária importância para a minha carreira
profissional. Após o meu regresso a Luanda encontrei quase tudo no mesmo sítio
menos o próprio Diário de Luanda (DL) que por razões políticas tinha sido
encerrado já no âmbito da luta de tendências que caracterizava o debate interno
no seio do MPLA.
O pessoal afecto ao DL foi encaminhado para outros
órgãos, tendo eu ido parar à Revista Novembro que foi criada como alternativa
ao extinto DL. O projecto que não tinha ainda uma periodicidade definida não me
agradou nem um bocado por falta de actividade diária, pelo que na época a única
alternativa que me restava era o Jornal de Angola.
Como já referi, não me lembro como é que se deu a minha entrada no JA, ou seja,
se a iniciativa foi minha ou se fui convidado por alguém a ir trabalhar lá.
Que me lembre, inicialmente não tive qualquer problema de integração
profissional, embora na época já se estivesse a adensar o clima político no
seio do MPLA depois da realização em Outubro de 1976 da 3ª Reunião Plenária do
seu Comité Central com todas as consequências visíveis no seio da sociedade.
Nessa reunião Nito Alves e José Van-Duném foram suspensos tendo-lhes sido
instaurado um inquérito interno relacionado com a existência ou não de
fraccionismo no seio do movimento. Sendo eu proveniente do Diário de Luanda
acho que fui desde logo conotado politicamente com a tendência afecta ao Nito
Alves, o que me colocou na lista dos suspeitos, situação que se foi agravando
até aos trágicos acontecimentos do 27 de Maio de 1977. Na época era o único
jornalista na redacção do JA a ser visto pela sua direcção e pelos colegas com
o rótulo de “nitista” ou “fraccionista”. Abertamente ninguém me dizia nada, mas
eu sentia que as pessoas não gostavam de mim por esta razão.
-Que
Jornal de Angola encontrou, com que estrutura organizacional e linha editorial
naquela altura?
RS- Antes de mais encontrei a redação do JA no
prédio ao lado que era de um outro jornal diário denominado, “O Comércio” que
existiu no tempo colonial mas não conseguiu sobreviver, embora ainda tenha sido
editado durante algum tempo depois do 25 de Abril de 1974.
Tratou-se de uma mudança que foi forçada pelo ataque à bomba que em meados 75
destruiu parcialmente as suas instalações que são as actuais. Foi neste local
que eu trabalhei durante o tempo todo que estive no JA até ao dia 28 de Maio de
1977, quando fui preso em plena redacção do jornal.
Naquela altura em 1977 o país já vivia em regime de
partido único, pelo que editorialmente toda a comunicação social estava em
perfeita sintonia com a estratégia
política do Governo do MPLA, não havendo por conseguinte da parte do Jornal de
Angola uma intervenção diferente que fosse minimamente independente do poder
político.
Como o país já estava a viver o processo político
que viria a desembocar no 27 de Maio e havendo claramente uma luta de
tendências no seio do MPLA, editorialmente o JA sempre se destacou como sendo o
órgão que mais atacava os dirigentes da tendência afecta a Nito Alves e José
Van-Duném, tendo ficado na história pelos seus editorias inflamados que o seu
Director da época elaborava e publicava.
Para além de Costa de Andrade (Ndunduma) que era o
Director, a segunda pessoa da hierarquia era o Júlio Guerra enquanto Chefe de
Redacção e com quem mais directamente me relacionava como jornalista. Conservo
do Júlio Guerra as melhores recordações, não podendo dizer o mesmo do primeiro
por tudo quanto de menos positivo marcou a minha actividade durante aqueles
poucos meses em que trabalhei no JA.
-Como
foi a mudança e adaptação da rádio para o jornal, na medida em que se sabe que
Reginaldo Silva iniciou a sua carreira de Jornalismo na Rádio Nacional de
Angola em 1975?
RS- A Radio foi de facto em Setembro de 1975 a minha
porta de entrada na comunicação social e no jornalismo, tendo os meus primeiros
passos sido dados como locutor de cabine que também era chamado de locutor de
continuidade.
Tal como tive a oportunidade de recordar em Fevereiro último na minha página do
Facebook, o meu baptismo de jornalismo viria a acontecer cerca de quatro meses
depois por ocasião da primeira visita oficial que o Presidente da República
Popular de Angola, Dr. Agostinho Neto, realizou ao estrangeiro com a sua
deslocação ao Congo- Brazaville.
Por incrível que pareça fiz a minha estreia no jornalismo como repórter com uma
cobertura internacional a todos os títulos histórica para a Angola.
E que cobertura!
A minha indicação foi uma decisão tomada por Rui de Carvalho, na época Director
de Programas da RNA, que deste modo fez uma aposta algo arriscada na minha
pessoa e que não foi muito bem recebida por alguns colegas que se sentiam
melhor preparados que eu para os devidos efeitos.
Por outro lado eu nem sequer pertencia ao Departamento de Informação onde
estavam enquadradas todas as pessoas que faziam jornalismo na Emissora. Por
tudo quanto se passou naquela viagem e pela complexidade técnica que se
revestiu a cobertura, foi de facto, diria mesmo, épico este meu baptismo
jornalístico que se fixou na minha memória com honras de primeira página.
Foi depois desta reportagem que decidi deixar a RNA
pois todos os meus esforços para ser transferido para o Departamento de
Informação e para me dedicar exclusivamente à reportagem foram mal sucedidos
com argumentos que já não me lembro exactamente quais eram, mas que não me
convenceram minimamente.
É nesta altura que surge o convite do Vergílio Frutuoso para ir trabalhar para
o Diário de Luanda que aceitei imediatamente e sem pestanejar, deixando para
trás a minha primeira experiência profissional com a comunicação social que
durou pouco mais de seis meses que foi tempo que estive na RNA entre Setembro
de 1975 e Março de 76.
A mudança da Radio para o Jornal foi feita sem qualquer sobressalto pois na
altura para além do conhecimento que tínhamos da língua portuguesa resultantes
da famosa quarta classe antiga e do ensino secundário feito no Liceu, ainda nem
sequer dominávamos os fundamentos do jornalismo que para mim estão basicamente
concentrados na teoria dos géneros jornalísticos e a sua aplicação aos
diferentes meios, falo da imprensa propriamente dita/jornais, rádio e
televisão.
Fazíamos um pouco aquilo que eu hoje chamo de “jornalismo instintivo” no contexto
de um país pós-colonial recentemente tornado independente, em guerra e com uma
aposta claramente na revolução social. Angola chegou a ter uma lei do poder
popular e a realizar eleições em Luanda para a constituição das Comissões
Populares de Bairro (CPBs).
A linguagem
dos nossos textos onde os adjectivos se destacavam pela quantidade tinha muito
mais de propaganda/discurso político do que de jornalismo conforme o entendemos
hoje, sobretudo no que toca a princípios como a independência editorial, a
objectividade e equidistância.
-Era já jornalista do Jornal de Angola
quando fez o curso intensivo de Jornalismo na Escola de Solidariedade da União
dos Jornalistas Alemães, Berlim na ex-RDA, em 1976?
RS- Conforme referi o curso foi feito antes de ter
sido admitido no Jornal de Angola, ou seja, durante o tempo que em 1976
trabalhei para o Diário de Luanda, que foi efectivamente a minha grande escola
de jornalismo prático.
Quando começo a fazer a referida formação teórica na
RDA já tinha efectivamente toda a experiência adquirida de cerca de um ano,
seja na Rádio Nacional seja depois no Diário de Luanda.
Felizmente que já consegui recuperar todas matérias que então publiquei no DL
com destaque para as duas grandes reportagens que realizei nas províncias de Benguela
e Huambo, logo a seguir a sua libertação pelas tropas governamentais, pois as
mesmas encontravam-se sob controlo das forças da UNITA e da FNLA na sequência
de tudo quanto aconteceu no país depois da proclamação da independência a 11 de
Novembro de 75. Foi como se sabe um acto que teve a particularidade histórica
de ter acontecido em três cidades diferentes. O MPLA na voz de Agostinho Neto
proclamou a “Dipanda” em Luanda, mas a UNITA e a FNLA fizeram o mesmo no Huambo
e no Ambriz, salvo erro.
É com um misto de sentimentos, onde se inclui a decepção, que hoje releio os
textos das duas reportagens, “Benguela ressurge dos cem dias de destruição” e
“Huambo: Os primeiros seis meses de liberdade e reconstrução” que em várias
edições publiquei no DL.
É uma revisitação que em termos profissionais nos
permite fazer uma avaliação de como nós e o próprio jornalismo angolano fomos
evoluindo nestes primeiros 50 anos de independência.
A linguagem musculada e politicamente adjectivada
era de facto a imagem de marca do jornalismo dos primeiros tempos do
pós-independência.
Era o tempo em que éramos mais conhecidos por “trabalhadores da informação”,
como um destacado dirigente do MPLA gostava de referir, do que jornalistas
propriamente ditos, o que não deixava de ser verdade.
Fazia-se informação, mas a perspectiva jornalística que tem
identificação da verdade dos factos com todas as suas envolventes a sua
grande orientação e motivação, era a grande ausente do nosso trabalho. Na
verdade as coisas de lá para cá parecem não terem mudado muito.
-Um
ano depois, ocorrem os trágicos acontecimentos relacionados com o dia 27 de
Maio de 1977, uma fase delicada, mas que sobre o qual importa abordar para os
devidos esclarecimentos. O que aconteceu
na manhã do dia 28 de Maio de 1977 quando foi trabalhar e como passou a estar
associado ao fenómeno do fraccionismo?
RS- Como fui associado ao alegado “fraccionismo” ou
“nitismo” já referi anteriormente que na sua origem terá estado o facto de eu
ter trabalhado anteriormente para o extinto “Diário de Luanda” que em 1976 foi
identificado como estando próximo da referida tendência, tendo nesta sequência
o seu Director sido exonerado no início de Outubro. Foi neste mês e depois da
Reunião do CC do MPLA que a extinção do próprio vespertino teve lugar em data
que não me foi possível apurar. Acho que houve mesmo um comunicado assinado
pelo então Secretário Administrativo do MPLA, Lúcio Lara, a dar conta desta
draconiana decisão. Como na altura estava fora do país, tenho alguma dificuldade
em estabelecer esta cronologia.
Mais importante seria ainda revisitar o conteúdo desse comunicado pois acredito
que o mesmo aponta as razões que estiveram na base da decisão do
Partido/Estado. É o que me ficou na memória.
Não é a primeira vez que o digo.
Para mim, a extinção do DL por razões políticas foi uma das piores decisões
governamentais tomadas na época pelo seu impacto negativo no desenvolvimento do
próprio jornalismo, pois a partir dessa data Angola passou a ter apenas um
único jornal diário com todas as consequências que tal monopolização teve.
Mesmo num sistema politicamente controlado por uma só força partidária como era
o que tínhamos depois da independência e que vigorou formalmente por cerca de
16 anos, isto é, até Setembro 1992, ter dois jornais diários sempre faria
alguma diferença pela positiva quanto mais não fosse pela concorrência entre os
seus profissionais que iria certamente estimular a melhoria da qualidade do
produto final de cada um dos jornais.
Reitero pois, que a extinção do DL foi de facto um rude golpe no
desenvolvimento da imprensa angolana no pós-independência.
Acredito que se o país continuasse a ter dois jornais diários teríamos tido um
melhor jornalismo mesmo com todas as fortes limitações da liberdade de
expressão impostas por uma conjuntura monopartidária.
Sobre o que me aconteceu no dia 28 de Maio de 1977
em plena redacção do JA onde recebi ordem de prisão, já por algumas ocasiões em
público falei desse episódio pelo que não tenho muito mais para acrescentar em
matéria de novidades.
Pelas razões consabidas no dia 27 de Maio não fui
trabalhar. Se bem me lembro ainda liguei para a redacção a comunicar a minha
impossibilidade de me deslocar pela cidade. Para quem foi acusado de estar no
Jornal com a missão de eliminar o Director deveria ter feito tudo para ir
trabalhar naquele dia.
Enfim.
Ao longo desses anos todos só acho estranho que entre os colegas que estavam
presentes na redacção e foram testemunhas do facto, nenhum deles tenha querido
falar do assunto em público. A maior parte deles já morreu, entretanto, mas
ainda há alguns que andam por aí.
Em relação à minha prisão, não tenho qualquer
dúvida, embora ele em vida tenha sempre desmentido, que foi o então Director do
JA que me mandou prender na sequência de tudo quanto tinha acontecido na nossa
relação pessoal/profissional.
A última conversa que tive aconteceu uns dias antes do 27 de Maio, tendo ele
num dos seus livros, o “Adobes de Memória/Chegadas (II Volume)” no texto “Um
caso de umbigo” (pag. 323) confirmado a mesma.
A pressa dele em acusar-me era tanta que a conversa
aconteceu em andamento, isto é, no decorrer de uma boleia que me deu.
Foi no dia em que Samora Machel esteve em Luanda e
eu tinha ido ao Palácio da Cidade Alta fazer a cobertura da
visita. Ndunduma estava lá.
No percurso para o Jornal ele tomou a iniciativa e
de facto falou-me mais ou menos nos termos em que estão referidos nas memórias
publicadas no já mencionado livro. Mais concretamente disse-me que o “Camarada
Onambwe” é que lhe tinha dado as informações a meu respeito, segundo as quais
eu estaria envolvido com os “fraccionistas”.
Durante o trajecto disse-me (exigiu) que eu devia
fazer imediatamente a minha auto-crítica porque a segurança já sabia de tudo a
meu respeito.
Eu neguei-me terminantemente a aceder à solicitação
do Ndunduma, tendo-lhe dito que não tinha nenhuma autocrítica para fazer,
uma vez que não me sentia culpado de nada e nem me revia nas acusações que me
estava a fazer.
Antes desta boleia, um outro facto relevante de que
me lembro e que se enquadra na sequência que me conduziu à prisão no dia 28 de
Maio foi um texto de opinião que eu escrevi.
Já não me lembro muito bem do que escrevi nesse texto, mas foi ele que pediu
(para nos testar politicamente) que todos os jornalistas da redacção do Jornal
de Angola escrevessem um artigo de opinião para uma coluna chamada “Fio do
Prumo” que era editada na segunda página.
O meu artigo nunca foi publicado e pelo que me
lembro ele nunca me explicou as razões da sua censura, pois era ele que mandava
no Jornal de Angola e mais ninguém. Tenho uma vaga ideia do que escrevi, mas
definitivamente não me lembro de ter feito alguma defesa de Nito Alves e muito
menos do tal fraccionismo. Era um artigo em que falava sobre o debate político
que se vivia na época e por aí adiante. Lamento imenso não ter ficado com uma
cópia desse texto.
-Internamente,
ao nível do Jornal de Angola, como se fez a gestão daquela fase menos boa da
história de Angola e que impacto, jornalisticamente, teve o fenómeno do
fraccionismo?
RS- Como fui preso logo no dia 28 de Maio não estou
em condições de me pronunciar com a necessária propriedade sobre a forma como
feita a gestão editorial do JA, nem quais eram as orientações que foram
traçadas e implementadas.
Olhando para os jornais da época fica, contudo, muito fácil de concluir que se
já havia muito pouco jornalismo até ao 27 de Maio, depois o jornalismo
desapareceu completamente das páginas do JA sobretudo no que toca à
cobertura de toda a movimentação que se
seguiu aos trágicos acontecimentos que culminaram com o brutal assassinato no
Sambizanga de algumas figuras do MPLA e das FAPLA.
-Consta
que, no final do ano em que lhe foi devolvido à liberdade, ingressou para os
quadros da RNA, onde chegou a ser chefe do departamento de informação. Como
descreve essa etapa?
RS-Sim foi mais ou menos isso que aconteceu, sendo
importante destacar aqui que a liberdade foi-me devolvida em Fevereiro de 1979,
após 21 meses de reclusão na Cadeia de São Paulo, mas de forma condicional, à
semelhança do que aconteceu com todos quantos passaram pelos calabouços da DISA
que depois virou MINSE.
Nenhum de nós foi julgado. Todos nós que não desaparecemos deste mundo dos
vivos, como foi infelizmente o caso de milhares de jovens angolanos que foram
presos antes e depois do 27 de Maio, fomos alvo de um processo
político-administrativo tendo-nos sido fixadas as famosas “medidas
administrativas” exactamente como a PIDE/DGS fazia no tempo do
colonial-fascismo. Eu fui proibido de voltar a ter actividade jornalística, por
isso não consegui regressar ao Jornal de Angola, tendo-me sido entregue uma
guia de marcha para me apresentar no Dundo na delegação provincial dos
transportes da Lunda-Norte.
Com o apoio da malta da Radio Nacional de Angola, que na altura já era dirigida
superiormente pelo Rui de Carvalho, consegui contornar esta interdição
profissional que me tinha sido imposta pela Segurança de Estado, tendo sido
readmitido nos seus quadros no segundo semestre de 1979, onde permaneci até
1991/92.
Durante os cerca de 13 anos que trabalhei de forma
ininterrupta para RNA fiz de tudo um bocado seja ao nível da realização de
programas como da informação, onde efectivamente cheguei ao topo de hierarquia
como Chefe do Departamento de Informação depois de ter chefiado a secção internacional
e a redacção central do DINF.
Lamentavelmente, por desentendimentos pontuais com o então DG vi-me forçado a
pedir a minha demissão após pouco mais de um ano de estar a exercer a referida
função. Este período que estive na RNA foi de facto de grande intensidade
laboral e afirmação/amadurecimento profissional. Foi o tempo do Telmo Augusto,
mas também foi o tempo em que decidi abraçar definitivamente, como Reginaldo
Silva, a independência do jornalismo com todas as suas consequências, em choque
aberto com a partidarização da média pública que me valeram alguns dissabores e
vários amargos de boca que dariam, certamente, para fazer uma outra entrevista.
Por desentendimentos posteriores que surgiram com a nova direcção da RNA
nomeada já por Rui de Carvalho quando este assumiu em 90/91 a direcção do
Ministério da Comunicação Social acabei por ter de me demitir da Emissora,
encerrando a minha segunda vida com a empresa da Comandante Gika.
A partir dessa data passei a exercer a actividade jornalística na condição de
free-lancer seja como correspondente da imprensa estrangeira seja como
coloborador de vários projectos editoriais privados que então foram surgindo no
país, onde se inclui a Emissora Católica de Angola após o seu ressurgimento em
1997.
-Quando
as ligações com o Jornal de Angola foram reatadas, em que moldes e como
reencontrou o único jornal diário de Angola independente?
RS- Já não me lembro exactamente nem quando, nem
como as minhas relações foram reatadas com o JA após ter sido libertado em Fevereiro
de 1979. Diria que comecei a colaborar
com alguma regularidade com o Jornal bem no início da década de 80, colaboração
esta que se estendeu até 1991, salvo erro. Depois já no tempo do António
Ribeiro e a seu convite, voltei a colaborar com o JA mas foi por muito pouco
tempo.
Acredito que durante esse período, praticamente toda a década de 80, fui dos
colaboradores angolanos mais regulares que o JA teve nas suas páginas/colunas,
sobretudo em matérias ligadas à economia. Na altura na RNA eu era o realizador
do programa semanal “Azimute-Os Novos da Nossa Economia”. Sempre achei a rádio
muito ingrata por causa do conhecido adágio popular “as palavras leva-as o
vento”.
Com o digital e a internet hoje não se coloca o problema que tínhamos na época
pois é sempre possível as pessoas voltarem a ouvir um determinado programa de
rádio quando bem entenderem.
Uma boa parte das matérias económicas que publicava no JA eram o resultado da
edição em texto que fazia dos temas que abordava no Azimute com destaque para
as entrevistas.
Para além disso, terei sido dos primeiros colunistas
que o jornal teve.
Como jornalista sempre senti necessidade de criticar, de elogiar ou apenas de
chamar a atenção da opinião pública, pelo que foram vários os textos de opinião
que publiquei no JA ao longo da minha colaboração com o matutino. Da coluna que
nunca me esqueci, nem me esquecerei, foi uma onde abordava a problemática do
abastecimento em Luanda a que dei o título “O meu cartão normal de
abastecimento”. Esta crónica valeu-me uma notificação da Segurança de Estado
tendo ido lá prestar declarações sobre as motivações que me levaram a escrever
sobre o assunto.
A pessoa que me interrogou achava que eu não devia ter escrito assim porque o
país estava em guerra o que podia ser aproveitado pelo inimigo. Felizmente tudo
ficou por ali embora o processo de investigações tenha sido aberto pois eu
assinei um auto com as minhas declarações.


