quarta-feira, 16 de setembro de 2026

JES perdeu (mesmo) a última batalha


 

Há cerca de dez anos quando partilhei num dos semanários de Luanda, no caso o já desaparecido “A Capital”, as minhas reflexões sobre o futuro de JES numa altura em que ele assinalava os 30 anos da sua entronização escrevi o seguinte:

Com todas as críticas que se possam fazer ao seu percurso e que são mais do que muitas e depois de ter vencido e derrotado todos seus adversários e inimigos, o “campeão” JES enfrenta agora o seu maior desafio de sempre nas pistas conflituosas de um país que ainda não se reencontrou.

Sair agora e bem por cima ou continuar no poder por mais 15 anos, isto é, até aos 82 anos, sem saber muito bem como vai lá chegar e como depois deverá sair e ser recordado.

Receamos que JES venha a escolher a segunda opção.
Escrevi anos depois já não me lembro bem quando nem onde, acho que também foi no mesmo semanário, que o “campeão JES” depois de ter vencido todas as batalhas da sua vida como Presidente deste país e Líder do MPLA, arriscava-se a perder a última, que era a batalha da sua própria sucessão.
E arriscava-se a ter de colecionar esta última derrota, segundo pensava eu na altura, porque não via JES realmente preocupado em preparar a sua sucessão sem mais hesitações nem manobras dilatórias.

Não estando de facto empenhado em preparar esta transição receava que ele pudesse ser surpreendido pelas partidas da vida que, a certa altura da nossa trajectória terrena, com o avançar da idade cronológica, se tornam cada vez mais frequentes e de consequências imprevisíveis.
É a altura em que começamos a viver um dia de cada vez.
Ao vê-lo partir no último sábado com três medalhas ao peito com que os seus correligionários quiseram reconhecer e homenagear a sua liderança, não tive muitas dúvidas em concluir que ele tinha mesmo perdido a última batalha da sua vida, mas não pelas razões que eu tinha alimentado quando inicialmente assim pensei e escrevi no tal semanário, já lá vão alguns anos.
A causa desta derradeira derrota tem a ver com tudo quanto de extraordinário aconteceu no último ano, desde que o “jovem” João Lourenço tomou posse como terceiro Presidente de uma República que nasceu “Popular” e em guerra civil e que hoje pode estar finalmente a conhecer a tão aguardada transição democrática do pós-guerra, rumo a um futuro realmente republicano que todos sabem qual é e como deve ser, mas que ainda nem todos acreditam que lá possamos chegar, sem mais regressos ao passado.

Não temos também nesta altura já muitas dúvidas em concluir que não era este o sucessor que JES voltaria a indicar e apoiar se o tempo pudesse voltar para trás, com todas as memórias que então foram sendo acumuladas neste ano em que um verdadeiro furacão político, no melhor sentido que esta turbulência pode significar no nosso contexto, tomou conta do país inteiro diante da surpresa de todos que de facto não acreditavam que João Lourenço pudesse ir tão longe em tão pouco tempo na ruptura que tem vindo a efectuar com a toda a herança “eduardista”.
Está de facto em curso aquilo que poderíamos, sem qualquer exagero, designar por “desduardização” do país, num contexto que tem algo de surreal, de espantoso mesmo, a tal ponto que um amigo meu comparou o processo em curso a um novo 25 de Abril só para Angola.

Aí já acho que existe algum exagero, mas nada que não faça sentido.
Acredito que se o tempo pudesse fazer este regresso impossível não teríamos a transição em curso, mesmo que JES fizesse uma outra aposta ou decidisse candidatar-se a mais um mandato, como se calhar lhe devem ter aconselhado os seus mais próximos receosos com o “day after”.

JES perdeu a última batalha porque de facto acreditou que era possível, com todo o peso dos seus 38 anos de poder (quase) absoluto, continuar a mandar no país, mesmo estando afastado já do poder.

Primeiro, se calhar, ainda pensou seriamente em manter este controlo mais apertado através da liderança do MPLA no âmbito do prolongamento de uma bicefalia atípica, que cedo se revelou potencialmente conflituosa e ameaçadora da própria unidade do partido no poder e que finalmente já pertence ao passado depois do Congresso Extraordinário realizado sábado último.

Uma das “provas” que assim pensou, foi toda aquela frenética movimentação legislativa que protagonizou, através dos sucessivos decretos que foram exarados nas últimas semanas do seu mandato e já depois da realização das eleições de 23 de Agosto de 2017.
Uma movimentação que visava, claramente, condicionar a gestão do seu sucessor em vários domínios, amarrando-o completamente ao passado recente, o que não se verificou, tendo acontecido exactamente o contrário, com João Lourenço a levar até às últimas consequências o principal slogan da campanha eleitoral do MPLA que era e continua a ser “Melhorar o que está bem, Corrigir o que está mal”.

Fomos dos primeiros a interrogar-nos o ano passado, ainda durante a campanha eleitoral sobre o que é que estava mal no meio de tantas “maldades” e o que é que era preciso mudar urgentemente.

O que está em causa nestes anos todos da governação do MPLA no pós- Guerra, escrevemos na altura, é de facto um modelo de desenvolvimento controlado por uma estratégia política que apostou no enriquecimento de uma elite empresarial local que mesmo assim é incapaz de sobreviver sem os continuados apoios, isenções e evasões.

Vaticinamos que o Executivo/MPLA de João Lourenço se quisesse ser diferente do de JES teria efectivamente de fazer algumas rupturas muito sensíveis com o passado.
É o que está a acontecer, no âmbito daquilo que já considerei ser uma desminagem do terreno herdado dos 38 anos de “eduardismo”.

JES perdeu a última batalha porque no seu entender, o seu sucessor não devia efectivamente governar com a sua própria cabeça e muito menos mexer num conjunto de situações que ele queria transformar numa espécie de “cláusulas pétreas”, do tipo “nem pensar, não toques aí que isto pertence ao chefe”.
Lembrei-me do que aconteceu na vizinha Zâmbia com Frederick Chiluba.

JES perdeu a última batalha porque deitou a tudo a perder, quando tinha tudo a ganhar se aceitasse a realidade de um país que de facto estava cansado da forma como ele governou nos últimos 15 anos do pós-Guerra.
E aceitar esta realidade, que agora está em transformação, também era de facto aconselhar melhor todos aqueles que beneficiaram directamente da sua “generosidade” a terem uma outra postura no relacionamento com o seu sucessor e com o próprio país.
JES perdeu a última batalha, perdoem-me a frontalidade, porque acreditou que o país tinha mesmo dono e que o dono era ele e os seus herdeiros.

Reginaldo Silva/Novo Jornal (Setembro 2018)