Foi o tempo suficiente para me apunhalarem pelas costas.
No meu regresso à Banda a primeira notícia que recebi foi-me dada por uma das minhas filhas mais novas, a Xita, que parece ter herdado de alguém que lhe é muito próximo o faro para as novidades.
Papá, disse-me, vão começar as obras no Kinaxixe, local que ela conhece muito bem, embora seja como eu uma autóctone da Vila-Alice (VA).
Aliás, ela é mais da Vila do que eu, pois eu sou originário da Maianga onde nasci e vivi os primeiros cinco anos da minha infância antes de me transferir para a Rua Alda Lara do glorioso bairro Kuba, uma das trincheiras mais firmes da resistência anti-colonial localizada na parte meridional da VA, tendo como fronteira a Estrada de Catete.
A notícia que a Xita me estava a dar tinha a ver, obviamente, com o inicio da destruição do Mercado do Kinaxixe, seis anos depois do processo ter arrancado como mais uma crónica de uma morte anunciada e de ter provocado um dos maiores dos sururus políticos da segunda República. Na sequência deste desenvolvimento foi criada em 2002 uma das raras Comissões Parlamentares de Inquérito (CPI) que a nossa Assembleia Nacional produziu ao longo de 16 anos de um prolongadíssimo e super-governamentalizado mandato que vai certamente entrar, como um “case-study”, para a história das democracias parlamentares multipartidárias.
A outra Comissão Parlamentar de Inquérito criada pela Assembleia Nacional eleita em 1992 foi para apurar a violência étnica que se abateu em 1993 sobre os bakongos na cidade de Luanda.
O trágico episódio ficou tristemente conhecido por “Sexta-feira sangrenta”, tendo a CPI criada para averiguar o criminoso ataque, resultado de uma iniciativa que teve muito a ver com o dinamismo do malogrado deputado do PDP-ANA, Mfulumpinga Landu Victor.
Se estivesse vivo, Mfulumpinga seria sem dúvidas um das grandes estrelas da actual campanha eleitoral, que pela sua mornez, de facto está a precisar de alguém com o “fenotipo” do assassinado político.
Convenhamos que num país com as características de Angola, onde a falta de transparência das instituições oficiais é uma das grandes preocupações da sociedade no seu conjunto, o surgimento de apenas duas comissões parlamentares de inquérito para um mandato de 16 anos é de facto muito pouca “fruta”.
Muito pouca “fruta” que traduz bem o fraco desempenho da função fiscalizadora da Assembleia Nacional, que, efectivamente, andou esses anos todos a reboque das encomendas legislativas do Executivo, sem grande espaço de manobra para assumir devidamente as outras vertentes do seu poder.
Pelo que julgamos saber a CPI que se debruçou sobre o dossier Mercado do Kinaxixe apenas terá caucionado a gestão privada daquela instalação, com a sua recuperação e modernização, sem nunca ter dado luz verde à destruição daquele património que acabou por acontecer seis anos depois.
Este assunto merece certamente alguma investigação para se apurar o que realmente a CPI do Kinaxixe recomendou no final do seu atribulado mandato.
O Kinaxixe desapareceu assim da nossa paisagem urbana e histórica por força de um camartelo cego que continua a ter demasiado poder para ser parado por quem quer que seja neste país.
No seu lugar e enquanto não se erguem as torres da ganância, da ostentação e da ignorância típicas do novo-riquismo que anda por aí furioso e à solta, ficou um imenso vazio que nos asfixia a alma e nos deixa profundamente tristes com a perda de mais um emblemático local da nossa memória.
Para quem como eu cresceu passando todos os domingos por aquele mercado em direcção a classe central da Igreja Metodista, não é fácil aceitar um tamanho atentado contra o património da nossa cidade.
Não estamos, obviamente, contra o surgimento dos shoppings nem dos arranha-céus, mas não podemos aceitar que eles nasçam destruindo tudo quanto é história e memória desta cidade, num país, onde o que mais existe é espaço de sobra o desenvolvimento de novas urbanizações, para a edificação de novas cidades.
Como não estamos de acordo com este “assalto” que já é uma tendência sólida em termos de gestão do espaço urbano luandense, a influenciar os decisores do poder político cada vez mais permeáveis a este tipo de “sedução”, tendo em conta as suas contrapartidas, só nos resta fazer aqui o nosso komba pelo Kinaxixe.
Com o passar dos anos, no fundo da minha ingenuidade, ainda cheguei a acreditar que o mercado seria poupado.
Ainda cheguei a acreditar que todos aqueles que se ergueram contra o Projecto Baía, teriam agora razões muito mais sólidas para lavrarem em público o seu protesto.
Com raríssimas excepções, só ouvi o seu silêncio.
Com esta demissão colectiva da sociedade civil angolana, a especulação imobiliária e o camartelo receberam mais uma forte mensagem de encorajamento.





5 comentários:
Baw, kasagad-sagad sa iya ubra blog!
Kota Reginaldo,
Hoje vim apenas para deixar elogios. Não é fácil encontrar-mos blog's de angolanos maduros. Muitos escrevem bem, mas apenas no papel. E nós que andamos mais na net do que em livros e jornais nem sempre temos o privilégio de ler os nossos eleitos iluminadores.
Agradeço também ao Manuel Vieira por me ter conduzido até esta pág. através do seu blog.
Quero pedir-lhe que persuada o seu grand'amigo Ismael M. a criar igualmente um blog. Sei que lhe dará ouvidos.
Um abraço e estou sempre a ouvi-lo e a vê-lo na RNA e na T(enha) P(aciência) A(mnigo).
Pode encontrar-me no www.mesumajikuka.blogspot.com
Luciano Canhanga
Antes de chegar em Angola pela primeira vez, uma Angolana em Londres tentou me-explicar a importância da Kinaxixi. Tinha muita sorte, durante os ultimos dez anos que tenho sido visitando o teu glorioso país, de viver sempre numa casa só cem metros do próprio Kinaxixi. É uma enorma tristeza que esse prédio já está destruida.
Mais um blog bonito Wilson, mesmo com as memórias tristes do grand homem, Mfulumpinga. Thank you.
Saudações do blogue "Bimbe".
Grande amigo e ex-consofredor,fico satisfeito ao saber que tu tal como eu,continuas engajado.Vou contctar-te nas proximas horas tenho esta a lutar no sentido de conseguir o teu contacto.Abracos de amigo Fernando Vumby e familia.Ainda hoje vou tentar localizar-te,estou esperando uma resposta,para a confirmacâo do teu E-mail-adress.
Enviar um comentário