
Acho que foi este o ponto principal da agenda daquele encontro que eu, em vão, tento localizar em algum dos arquivos da minha cachimónia.
De acordo com algumas testemunhas que se encontravam no terreno e que muitos anos mais tarde me recordaram esta parte da história, pois a minha memória e a traição por vezes confundem-se, ter-me-ei oposto vigorosamente a recondução de um dos nossos ministros.
Ele tinha feito parte do Governo de Transição saído do Alvor, onde o dito cujo, não terá tido o melhor desempenho, de acordo com os valores que defendíamos na época.
O fundamental era ser militante e estar cem por cento ao serviço da causa, de preferência com talas como os cavalos de corrida para não desviarem as suas atenções e energias para os lados. Nem para direita, nem para esquerda.
Quando nos “desviámos”, dois anos depois, aconteceu aquela terrível desgraça que se mantém bem viva como uma das maiores manchas da história destes últimos trinta anos.
Pelo que julgo saber, o ex-ministro acabou mesmo por não passar na triagem dos comités de bairro e das organizações de massas, e eu fiquei até hoje com uma dúvida enorme perdida nas lembranças cada vez mais esbatidas da minha ingrata memória, que muito pouco me tem ajudado, sobretudo quando eu mais preciso dela.
Terei sido, efectivamente, eu, o responsável pela sua “queda”?
Trinta anos depois ocorreu-me ir buscar esta memória para assinalar nestas colunas mais um aniversário de um país ainda muito jovem, embora tenha nascido num milénio e num século que já fazem parte do passado.
Na memória do tempo que foi passando, melhor, que foi devorando tudo e todos, este país que esteve quase a desaparecer, volta a ter, três anos depois das armas se terem calado, fortes motivos para a acreditar no seu futuro.
Um futuro que tem necessariamente de olhar, sempre que possível, para o passado deserto de realizações e empreendimentos, num exercício de saudável revanchismo.
Vamos de facto vingar-nos do passado construindo tudo aquilo que para além de não termos construído, ainda nos demos ao luxo de andar a destruir.
De facto durante estes trinta anos houve uns que destruíram e outros que não construíram.
Fica, por exemplo, muito difícil perceber como é que a capital de um país que foi sempre governado pelo mesmo regime, não tenha ao fim de trinta anos conseguido incorporar na sua arquitectura aquele conjunto de obras públicas mínimas que marcam e transmitem de facto a imagem do novo poder.
Estamos a falar da sede do governo, do parlamento, do palácio presidencial, do tribunal supremo. Estamos ainda a referir-nos ao estádio nacional, a um complexo protocolar para receber visitas de estado e por aí adiante.
Tudo por aqui, com estas características, acabou por ser herança do malvado colonialismo.
Involuntariamente os dois “parceiros” acabaram por ser signatários de um mesmo projecto com todos os descontos que se possam fazer ao nível desta factura histórica, sem dourar a pílula de uns, nem branquear a imagem dos outros.
Angola “desconseguiu” nestes últimos 30 anos por obra e graça das suas elites políticas.
Esta é a grande verdade com que temos de enfrentar o futuro para não repetirmos o passado penoso que foram estas últimas três décadas.
Esta é grande referência com que temos de nos vingar de um passado de destruições e frustrações para todos os gostos, feitios, virtudes e defeitos.
A vingança só pode ser uma.
Está à vista de todos, com a urgência que a miséria generalizada dos angolanos e a reconstrução nos impõem, porque a partir de agora, em princípio, já não haverá mais trinta anos para ninguém sozinho fazer o que bem lhe apetecer na real gana.
Tudo vai ter de ser feito de quatro em quatro anos, de acordo com a vontade expressa pelo eleitorado, o tal eleitorado que aguarda pacientemente sentado pela conclusão de um entendimento entre os políticos, até poder fazer a sua entrada com a força do voto na arena nacional.
É claro que isto só se vai processar assim, se o país optar pela via das urnas, o que ainda não está suficientemente decidido, pelo menos enquanto elas, as urnas, não se voltarem a abrir e a sorrir para todos nós, como sendo a única opção sustentada para resolvermos pacificamente as nossas diferenças, com ou sem agendas de consenso, com ou sem pactos de convivência.
A outra já a conhecemos e muito bem.
Está aí bem patente nos desastrosos resultados destes primeiros trinta anos de independência, onde a crescente criminalidade violenta entre os jovens já é um sinal que aponta claramente para a tal urgência que é preciso saber imprimir ao processo.
Só esperamos, é que ninguém queira repetir a dose.
A paciência dos excluídos filhos da independência começa a esgotar-se.